Capítulo 15 - A princesa, o reino e o ladrão

Sara fitava o extenso lago de um profundo azul. Gostava da brisa. Gostava ainda mais do som do vento que, com uma admirável força, fazia com que seus longos cabelos negros dançassem como folhas secas no outono.
Sara aproximou-se do lago e fitou a água esperando ver o seu reflexo, mas não foi isso que a dama silenciosa admirou. Uma raposa vermelha era refletida no lago, a criatura tinha uma espada negra cravada nas costas.
- Coragem... – sussurrou a raposa.
Sara virou o rosto, horrorizada. A dama fitou o chão e sorriu, seu sorriso desapareceu quando ela fitou o céu. Com uma assustadora tranquilidade, Sara retirou uma faca do interior do vestido e, sem pensar duas vezes, fez com que a lâmina beija-se seu pescoço.
Outra vez, Sara acordou em um disparo, exigindo gritar.  “Outro pesadelo”. Ela estava em seu quarto, no castelo do rei. Seu pai, ao lado de muitos cavaleiros, havia deixado o castelo há algum tempo. A presença do rei havia sido solicitada no círculo da paz e ele não se demorou a partir. Sara estava assustada e com raiva.
Meu pai volta ao mundo depois de um longo tempo e me abandona novamente na escuridão em menos de três dias” concluiu Sara.
A princesa levantou-se da cama e correu para a janela. A neve pintava todas as torres do castelo de branco, a luz da lua perfurava a névoa da noite e fazia com que pontos do castelo brilhassem. Ela adorava a vista. Amava o inverno, apesar da estação deixar todos no reino apavorados “É tão lindo, não há nada a temer.”
- Você é linda até quando acorda, minha sobrinha -  Sara assustou-se com a voz de seu tio, Jullius. Ela o odiava e sentia-se insegura desde que seu pai havia partido. Quando seu pai decidiu deixar Jullius novamente no trono, no período em que estaria ausente, Sara não pode acreditar. Depois de todo os danos que seu tio havia causado ao reino ela não entendia como seu pai havia cometido aquele enorme erro novamente e simplesmente não perdoava seu tio por tentar executar Sir Illar. Como não podia falar, a dama abanou as duas mãos para o tio em direção ao alto, com movimentos lentos, pedindo para que ele fosse embora.
- Calma, princesinha! Eu só estava observando você – Jullius aproximou-se de Sara, sorrindo.
- Seus cabelos – A voz real acariciou os cabelos da princesa – São tão lindos, eu gosto deles assim.
“Então devo arrancá-los” concluiu Sara.
Sara correu para o lado de seu cama, onde havia um grande baú vermelho, com um pouco de esforço, ela abriu o baú e agarrou um pedaço de pergaminho, pena e tinta. Não podia ter se expressado melhor. A princesa ergeu o pergaminho amarelado com um “VÁ EMBORA” em tinta fresca no rosto de seu tio.
- Quanta arrogância, saiba que enquanto o seu pai estiver fora eu tenho total controle sobre você. De certa forma... – Jullius agarrou o rosto de Sara e aproximou seus lábios aos dele – Você é minha, é submissa a mim.
Sara o empurrou para longe e disparou para a porta do quarto. Antes que chegasse, alguém deu rápidas e desesperadas batidas na porta.
- Lord Jullius, a cidade está sob ataque! Abra, por favor! Rápido, precisamos organizar nossa estratégia de combate! – O cavaleiro parecia bastante desesperado. Era possível sentir o medo em sua voz.
Jullius perdeu a pouca cor que tinha. O tio e a sobrinha encararam-se durante longos minutos e então, finalmente, a voz real criou coragem para abrir a porta e acompanhar o soldado, antes de sair, Jullius fitou sua sobrinha.
- Sara, acompanhe-me. Preciso manter você perto.
“Estão atacando a cidade? Seriam os famintos? Podemos vencer? Quantos são? Vamos todos morrer? Onde estão os cavaleiros?” eram tantas perguntas e Sara não conseguiria a resposta para nenhuma delas. Não sem uma voz. Sem ter outra escolha, a dama acompanhou seu tio até a sala do trono.
O jovem escudeiro tremia e rezava aos deuses. Jullius tinha o medo estampado em seu rosto. Sara não sabia o que esperar, só gostaria de ter seu pai por perto.
A sala do trono estava escura. A única fonte de luz chegava através das janelas, no alto da sala e, ironicamente, iluminavam apenas o trono. O trono iluminado pelo luar da escura e fria noite.
Jullius fez sinal para que a sobrinha esperasse e para que o soldado o acompanhasse.
“Onde estão as tochas?” perguntava-se Sara.
O jovem escudeiro de olhos negros e pele clara lamentou o que aconteceria em seguida.
- Perdão, princesa – O escudeiro levantou a voz.
- AGORA! – houve um berro e e então, disparos. Uma flecha em chamas atingiu o escudeiro em seu olho esquerdo, atravessando seu cérebro. Outras duas flechas não incendiadas atingiram Jullius no ombro e no tornozelo, respectivamente.
Sara tentou correr para as sombras, mas não adiantou, as tochas foram acessas e agora todo o salão era visível.
Mais de quarenta cavaleiros ocupavam a sala do trono e, entre eles, um erguia a inconfundível bandeira com o brasão de Roventus: Uma lâmina vermelha envolta em penas negras de pássaro.
A voz real apoiava-se no trono e urrava de dor. Sara correu para trás do tio, nunca entendeu porque o fez, mas fez. Ela o odiava, mas naquela sala, sozinha e cercada de inimigos, não havia melhor escolha.
- O quê em nome dos deuses é isso? Traição! – Berrou Jullius – TRAIÇÃO!
O cavaleiro alto que vestia uma armadura dourada desembainhou sua longa espada.
- Calado, Lorde Tarth! Este castelo pertence agora ao Lorde de Roventus, ou melhor, o reino de Maros pertence ao Lorde de Roventus! – berrou o cavaleiro.
- Espadas! – gritou um jovem escudeiro de armadura negra – Ao vento! – responderam todos os outros em coro.
- MEU SANGUE! – continuou o jovem escudeiro – PERTENCE AO VENTO, PERTENCE A ROVENTUS! – finalizaram os demais em coro.
- Traição? Bom, quem cometeu traição foi seu jovem escudeiro que, após perder a batalha na entrada do castelo, entregou você a mim, mas não se preocupe, eu já fritei o cérebro daquele traidor para você. – Disse o cavaleiro dourado, sorrindo.
Jullius esforçou-se para erguer-se, colocou toda sua força no braço esquerdo, que estava apoiado ao trono. Mesmo com todo o esforço, a voz real caiu e bateu o rosto no chão.
- Malditos, esse é o reino que vocês juraram defender! – Berrou o tio de Sara – Como ousam invadir o MEU castelo? Os meus cavaleiros irão arrancar as cabeças de todos vocês e então eu as mandarei de volta ao seu maldito lorde traidor! – Jullius conseguiu sentar-se e apoiou suas costas no trono.
- Não existe mais Lorde em Roventus – disse o cavaleiro dourado – existe apenas um rei, o rei de Maros!
A voz de Jullius soou como um lamento. Como uma alma em desespero, agonizante.
- Não! JAMAIS! Aquele maldito não tem sangue real. A mãe dele deve ser uma puta qualquer que fodeu metade do reino em troca de uma migalha de pão, ele jamais sentará neste trono. Não pode, não pode... – Sara finalmente percebeu que estava tudo perdido. Seu tio e ela iriam morrer. E ela podia sentir o medo em si assim como sentia o medo na voz de seu tio, já não o odiava mais, não queria morrer com ódio em seu coração.
“Morrerei sem conhecer o amor e sem poder cantar uma bela canção” Sara estava abalada. Ela envolveu o tio pelas costas com os braços e repousou a face em seu pescoço. Ela queria dizer, queria pedir piedade, ela precisava viver, para abraçar seu pai novamente, mas era impossível.
- Perderá sua cabeça por isso, Lorde Tarth. Julgarei suas palavras como traição contra o novo rei de Maros – O cavaleiro dourado limpou a espada e começou a caminhar em direção ao trono. Em direção a Jullius.
A voz real soluçava.
- Como ousam? – As lágrimas escorriam pelo rosto da voz real – Como os deuses ousam permitir que um sangue impuro acabe com o sangue do rei, com o sangue real?!
 Jullius agarrou os cabelos de Sara e a jogou para longe.
- Solte-me, sua putinha! Viu o que você fez? Fez com que seu pai deixasse o reino e agora estamos todos perdidos.
As chamas faziam com que a armadura do cavaleiro parecesse mágica, brilhante. A armadura brilhava mais e mais a medida que ele aproximava-se cada vez mais do trono.
- Vou perder minha cabeça, eu vou morrer e não sinto nada além de ódio, SUA PUTA! – berrou Jullius.
-  Quando eu morrer, eu espero que eles te estuprem. Eu espero que arrancem cada membro de seu corpo e que você sofra, eu espero que você sofra muito. – Os olhos de Jullius fitavam os olhos da princesa, em chamas. -  O seu honrado pai atendeu ao chamado do Norte e abandou sua cidade. LEVOU METADE DOS NOSSOS CAVALEIROS E ABANDONOU VOCÊ AQUI! – Jullius batia a própria cabeça contra o trono – Eu amaldiçoou você, Sara, eu espero que o meu irmão, aquele velho desgraçado aca – A espada do cavaleiro dourado atravessou a garganta de Jullius. Estava tudo acabado e Sara agora chorava.
“Eu não tenho culpa, tio! Eu só queria que ele voltasse a sentar-se no trono e que voltasse a tomar conta de tudo!” Alguns minutos antes, Sara havia perdoado seu tio, agora, depois de tudo que ele havia lhe dito, ela sentia uma mistura de raiva e prazer ao vê-lo agonizando no chão, com sangue espirrando de sua garganta.
O cavaleiro levantou a mão direita e falou em voz alta.
- Vamos deixar o reizinho falando com o próprio sangue, depois eu corto a cabeça dele! – Os outros cavaleiros caíram na gargalhada e o cavaleiro dourado pareceu orgulhoso pelo comentário. Após chutar o rosto de Jullius, o cavaleiro pousou seus olhos em Sara.
- Vejam o que temos aqui, companheiros! – Berrou o soldado, que não tirava os olhos de Sara – Cabelos escuros como a noite uma pele pálida como leite!
- Não tão branca e pálida quanto o leite que ele vou enfiar nela! – Berrou um cavaleiro e todos caíram na gargalhada.
Sara não conseguia reagir, pensava em fugir, mas seu corpo estava imóvel. “Fuja” o cavaleiro aproximava-se. “Levante-se!” o cavaleiro preparava-se para ergue-la.
Com um estrondo, as portas da sala do trono foram abertas e vinte cavaleiros de seu pai, o verdadeiro rei, invadiram a sala. O som do combate invadiu o mundo, ignorando a princesa, o cavaleiro dourado disparou com a espada ao alto para ajudar seus companheiros e então, só então, Sara correu.
“A passagem secreta, preciso da passagem secreta” Era tudo em que Sara conseguia pensar, a dama corria pela longa escadaria de pedra, enquanto corria, derrubava algumas tochas que estavam presas na parede ao chão, era uma tentativa inútil de atrasar alguém que a estivesse perseguindo. Chegando ao grande quarto do rei, Sara procurou desesperadamente pelo quadro da espada, até que o encontrou. O longo quadro ocupava boa parte da parede e tocava o chão , exibindo a imagem de um ser erguendo uma espada negra. O quadro fez com que a princesa lembra-se da espada que o armeiro havia encontrado. A mesma espada que foi um dos principais motivos para que Illar quase fosse executado.
Sara puxou o quadro com força. Parte do quadro abriu-se, parte do quadro escondia uma porta que escondia uma longa e profunda escadaria circular. Sem perder muito tempo, a princesa agarrou uma tocha acessa e desceu a escadaria.
Ao fim da longa descida circular, Sara encontrou um extenso corredor escuro e estranhamente úmido. A princesa podia sentir que molhava seus pés.

“Onde estou?” Ela nunca havia visitado nenhuma das passagens secretas do castelo, apenas sabia de sua existência desde criança.
“Em caso de espadas ou, quem sabe, dragões, use as passagens e siga para Roventus, minha querida!” Isso era o que o seu pai sempre lhe dizia, mas agora, para onde ela seguiria? Quem estava atacando sua cidade era quem deveria estar seguindo e lutando em nome de seu pai! Nada fazia sentido. Sara estava com medo e, por mais que tentasse, não conseguia fazer com que as lágrimas deixassem de escorrer em seu rosto. A princesa já conseguia enxergar a luz do luar, no fim do corredor, sentiu feliz, mas acompanhada a felicidade veio o horror. Gritos, lamentos e uivos de desespero ecoavam por todos os lados, seguidos do som estridente de espadas e cavaleiros berrando.
Sara chegou até um pequeno portão de aço que só podia ser aberto do lado de dentro, água escorrida em seus pés e caiam direto em um pequeno rio, agora a princesa finalmente havia se dado conta de onde estava, mas preferiu não pensar muito sobre isso.
Seu longo vestido verde estava totalmente manchado de marrom nas partes mais baixas e isso apenas aumentava sua dor, pois o vestido pertencia a sua falecida mãe. Ela sempre usava o mesmo vestido no dia em que estão, no dia do aniversário de sua mãe.
Após abrir o portão, com cautela, Sara sentiu muito frio e acabou se vendo sem opções. A princesa poderia pular no rio e nadar em segurança até uma ponte que conseguia enxergar mais adiante. Esse seria o plano mais seguro, caso ela soubesse nadar, aliado a tudo isso, o frio de gelar os ossos também fez com que ela descartasse completamente a ideia de pular no rio. Ao seu lado direito, Sara podia ver uma longa escadaria que daria logo ao lado direito externo do castelo. De onde estava podia enxergar fumaça e chamas ardendo em direção a cidade e os uivos de dor apenas aumentavam. As pessoas estavam sendo massacradas. Ela não tinha escolha, precisava subir a escadaria e correr para longe, não sabia para onde, apenas para longe.
Sara disparou em direção a escadaria, mas algo a impediu, algo agarrou seu cabelo. Com um giro, Sara deu de cara com o cavaleiro dourado, o mesmo que havia assassinado seu tio.
- Onde você pensa que vai, bela donzela? – O cavaleiro deu uma piscadela para Sara, e agora puxava seus longos cabelos para o alto. Sara agonizava.
- Você é a princesa Tarth, aquela que não tem voz, certo? – Sara assentiu, desesperada. O cavaleiro continuou.
- Sabe que acho isso ótimo? Assim você não poderá implorar por socorro ou ficar berrando quando estiver agonizando - Sara queria implorar.
“Por favor, não me machuque! Meu pai é o rei, ele vai lhe pagar muito!” Era tudo o que ela queria dizer, não importava-se se isso acabasse parecendo com que ela fosse uma garotinha assustada, ela só não queria que a machucassem. A princesa soluçava de medo.
- Que belo vestido, gosto do cheiro que vem dele. – O cavaleiro a soltou, desembainhou a espada e apontou para o pescoço da dama.
- Venha comigo, princesa. Você será o prêmio da noite, não, seu pai não irá lhe resgatar, há essa hora, ele já deve ter perdido a cabeça. Você não tem valor nenhum, ninguém vai pagar nada para resgata-la.
Seria isso verdade? Seria verdade que seu pai, o rei, havia sido assassinado? O mundo começou a girar, Sara mal conseguia manter-se de pé.
Encarando a princesa, o cavaleiro seguiu falando.
- Os meus leais companheiros querem comemorar, bom. – O cavaleiro deus os ombros – Que a comemoração seja foder você!
Sara tentou correr, mas foi novamente agarrada pelo cabelo.
- Por que você não fode com a minha espada na sua bunda? – A voz veio do alto da escadaria, um jovem esguio e loiro descia calmamente. Mancando e sorrindo. O cavaleiro puxou Sara para trás de si e apontou a espada para o jovem loiro.
- Vai perder a cabeça por isso! Quem sabe depois eu não enfie a minha espada na sua bunda seu filho da puta! – Berrou o soldado, bufando de raiva.
- Era você quem queria forçar a dama as suas vontades nojentas. Quem pensa em fazer isso com uma bela dama não tem amor pela beleza de uma mulher, apenas oculta a sua verdadeira vontade... – Jovem coçou a cabeça – “Enfiar espadas na própria bunda.”
A pálida pele do cavaleiro dourado tornou-se vermelha como o sangue.
- Escute aqui, pirralho! Eu vou arrancar as suas tripas e fazer com que você as engula só para que eu posso arrancá-las novamente!
O jovem esguio desembainhou uma espada com a lâmina totalmente negra.
- Vai com calma, engolidor de espadas, vai com calma! – Disse o jovem, com um tom irônico na voz.
“É a espada que foi roubada” pensou Sara, mas quem a empunhava não parecia ser um ladrão “É tão jovem”.
O cavaleiro dourado saltou com a espada erguida em direção ao jovem. O Ladrão balançou a espada para a esquerda e, apenas o vindo da lâmina da espada negra partiu o cavaleiro dourado ao meio. Sara colocou as mãos sobre os olhos.
O jovem ladrão sorriu e então, vomitou.
Sara correu em direção ao jovem loiro com milhares de perguntas, mas tudo que conseguiu fazer foi abraçá-lo.
- Calma princesa, eu estou recuperando o fôlego. Não é todo dia que se vê um cavaleiro partido ao meio, aproposito – O jovem olhou nos olhos da princesa – Meu nome é Robin, eu não sou um príncipe e nem tenho um cavalo, mas vim resgatá-la dessa cidade em ruínas.

Capítulo 14 - Eu te amo

- Pai você precisa me levar até as montanhas! – Insistiu Elizabeth.
- Minha pequena fagulha... – Elizabeth odiava quando seu pai a chamava assim. O motivo, é claro, era a cor do seu cabelo. Vermelho como o fogo. Vermelho com o sangue.
- As montanhas flormel são perigosas, talvez ainda existam alguns Chomts vivendo lá! – Elizabeth cruzou os braços e fez a cara mais séria que conseguiu.
- Nunca se sabe! Pode ser que ainda tenham alguns sim! – Retrucou Edson, colocando longos casacos de pele de urso em uma espécie de bolsa.
Aquele tinha sido um péssimo dia para Edson e Elizabeth sabia disso. Sua armaria fora invadida e roubada. A espada que fora roubada era extremamente rara e, segundo fatos que Elizabeth achava duvidosos, propriedade do rei.
Já era noite e Sir Illar já deveria estar longe, o melhor amigo de Edson fora para o círculo da paz, ao lado do rei de Maros.
George correu em direção ao pai e agarrou sua perna direita.
- Pai, não vai! Quem vai mim ajuda? Eu posso usar isso. – George exibiu uma pequena faca afiada.
Elizabeth revirou os olhos e, com um tapa, tirou a faca das mãos do irmão. A faca foi parar no chão, ao lado do tapete.
- O certo seria: Quem vai ME AJUDAR? Aprenda a falar direito antes de sair por aí com uma faca! – E bagunçou a cabeleira loira de seu irmão, que em surto de raiva, mostrou a língua para Elizabeth.
- Pai, você vai precisar de alguém para conversar. Alguém pra lhe a ajudar a carregar todas essas coisas. Deixe-me ir com você! – Elizabeth agora implorava. Seria perfeito, explorar as montanhas em busca de antigos tesouros e, quem sabe, Chomts. As montanhas flormel eram famosas por abrigarem enormes ursos, assim como as famosas flores flormel, que ao fim do dia, deixavam o mundo com cheiro de mel. Lá ninguém a impediria de treinar com a espada.
“Serei apenas eu, meu pai, a espada e o silêncio” Elizabeth quase conseguia sentir o vento soprando em seu rosto.
- Não. E não se fala mais nisso!
As esperanças estavam perdidas. Elizabeth jamais exploraria as montanhas.
- Você não tem que observar a lua, Eliza? Para um estudo? As montanhas seriam perfeitas para isso! – Disse a velha ursa, dando uma piscadela para Elizabeth.
Edson bufou.
- Tudo bem, tudo bem! Eu levo a fagulha, mas saiba que existem monstros no escuro e você não terá sua cama macia nas montanhas. E lá será muito frio, de gelar até os ossos!
“Que venham os monstros!” Elizabeth saltava de alegria. Sua aventura finalmente estava prestes a começar e então...ela ouviu um berro.
Seriam gritos? Elizabeth não tinha certeza, mas algo acontecia.
- Vocês ouviram isso?
Edson coçou a careca.
- Eu acho que ouvi. – A ursa rebateu - Deve ser alguma baderna no berço do ouro, geralmente conseguimos ouvir daqui!
Elizabeth deu os ombros e preparava a montar mentalmente sua bagagem.
“Livros, pergaminhos, tinta e uma espada de madeira” Elizabeth foi até seu quarto, agarrou vários livros e de volta a sala principal de sua casa, começou a folhear, em busca de algo que ainda não tivesse lido.
A jovem agora lia sobre um grande lorde que, por amor, perdeu a cabeça. O cavaleiro conhecido como “Sir raposa” era o capitão da guarda de lorde Strongwind, da cidade de Monsguil.
Sir Raposo apaixonou-se por uma jovem donzela de cabelos cacheados. Passaram se meses e em uma noite, Sir Raposo levou a dama para seus aposentos na fortaleza de lorde Strongwind. Após o amor, a jovem cortou a garganta de Sir Raposo e, escondendo-se nas sombras, ateou fogo em toda a fortaleza, matando milhares de soldados e também lorde Strongwind. A jovem fez com que Monsg-
- SOCORRO! MAMÃE!
“O que está acontecendo?” Dessa vez todos ouviram alto e claro. Era a voz de uma criança em desespero. O som de chamas invadia agora os ouvidos de toda a família Karth, acompanhado dos guinchos de horror de inúmeras pessoas.
- Eu ouço espadas – Comentou o armeiro.
Edson agarrou uma longa espada encontrava-se presa na parede.
O armeiro agora tentava espiar o que estava acontecendo pelas frestas de uma pequena janela. Ele não conseguia enxergar nada.
- Elizabeth, George e mulher, para trás! Vou abrir a porta e ver o que está acontecendo.
O coração de Elizabeth palpitava a toda velocidade, seu irmão agarrou-se em suas costas, tremendo. Todos estavam quase paralisados, pois milhares de gritos desesperados ecoavam do lado de fora.
O armeiro apoiou-se na porta, colocou a mão na maçaneta e, com um estrondo, foi jogado para trás e caiu no chão.
Um cavaleiro loiro acompanhado de um cavaleiro usando um capacete com chifres adentraram a casa dos Karth, arrombado a porta.
- O SÍMBOLO, SÃO KARTHS! ACABE COM O VELHO!
Edson levantou-se e ergueu a espada. Os dois cavaleiros desembainharam suas longas espadas e jogaram-se contra o armeiro.
Edson esquivou-se e empurrou um deles, o que usava capacete, que tombou no chão como uma enorme árvore. Com um giro, Edson agarrou a capa do outro e o jogou contra a parede.
Antes que pudesse defender-se,  o cavaleiro atirado ao chão ergue-se e enfiou sua lâmina nas costas de Edson.
- PAI!
Berrou Elizabeth e seu pequeno irmão em coro. George atirou-se contra os cavaleiros.
- GEORGE VOLTE AQUI AGORA MESMO! – Berrou a velha ursa e disparou em direção ao filho.
O pequeno Karth chutava o cavaleiro de capacete, que tinha uma longa lâmina cravada em Edson.
O cavaleiro loiro agarrou George pelos cabelos e, com um movimento leve, passou a lâmina pela garganta da criança. O cavaleiro jogou o menino ao chão.
-NÃO!
Elizabeth correu em desespero até seu irmão, que lutava para respirar, mas a cada tentativa desesperada para puxar o ar, George acabava afogando-se ainda mais no próprio sangue.
A mesma espada atravessou o coração da velha ursa, que caiu ao chão fitando Elizabeth.
Edson encontrava-se no chão, agonizando, tentando alcançar a própria espada.
- Elizabeth...corra...filh... – Edson tentava falar.
Elizabeth perderá seu irmão e sua mãe. E foi rápido assim, em um piscar de olhos. Seu mundo agora desmoronava.
O cavaleiro com chifres apoiou uma perna sob as costas de Edson e deslocou todo o seu peso nela.
- Veja só que belo tapete de Karth! – Ele abriu um sorriso cheio de dentes.
Os dois gargalhavam enquanto Edson agonizava.
- Pai! Soltem o meu pai, agora! – Elizabeth socava as costas do cavaleiro com capacete, mas ele lançou um soco em seu rosto. A dama Karth foi parar de joelhos no chão.
Edson lutava para falar.
- Sai...Elizabeth, corr...
Elizabeth ergue-se e tentou correr em direção ao pai, mas alguém a puxou pelo longo cabelo.
- Olha só! – O cavaleiro loiro cheirou o cabelo de Elizabeth – Mas que belo cheiro. Que bela cor!
O cavaleiro agarrou o rosto de Elizabeth, forçando-a a olhar direto em seus olhos castanhos.
- Você é muito linda, sabia? Eu adoraria foder  você!
Elizabeth foi jogada ao chão com toda a força.
- Tybon, deixe o resto para mim. Terminarei o serviço. – O cavaleiro loiro tinha um estranho sorriso no rosto e fitava Elizabeth. O tempo todo.
O cavaleiro de capacete guardou a espada.
- Você sabe que isso não é permitido, não estamos aqui para isso!
O cavaleiro de olhos castanhos gargalhou.
- Fora daqui! AGORA!
Relutante, o outro cavaleiro deixou a casa dos Karth.
Novamente, Elizbeth tentou correr em direção a seu pai, mas foi agarrada e jogada ao chão. Dessa vez, o cavaleiro apoiou o pé direito sob o estomago de Elizabeth, deixando-a imobilizada.
A jovem via o cavaleiro de baixo para cima. Ao olhar para o lado, pode ver que seu pai observava tudo. Edson chorava e lutava para chegar perto da filha. Rastejando.
- Hoje, vou lhe mostrar para o que as mulheres foram feitas! -  O cavaleiro jogava partes de sua armadura para longe e retirava seu cinto.
A jovem avistou a faca que deixará cair mais cedo. Estava logo ao seu lado. O cavaleiro estava ocupado, retirando o restante de sua armadura. Elizabeth agarrou a faca. Antes que pudesse fazer qualquer movimento, a perna direita do soldado esmagou a mão de Elizabeth. A faca foi forçada contra a palma da mão, que começou a sangrar. A jovem gritou, agonizando.
- Você acha que vai se salvar? Acha que pode fazer alguma coisa pra fugir do que vai lhe acontecer agora, putinha? Você não pode se esconder – Ele exibiu um sorriso cheio de dentes.
- Mas se você é assim, tão selvagem, posso usar essa faca em você!
O homem lambeu o lábio superior.
- Tão doce, tão jovem.
Elizabeth soluçava, era o fim.
O homem jogou-se sobre o corpo de Elizabeth, agarrou suas coxas e forçou a jovem a abrir as pernas com o joelho.
- Fique calma, você vai gostar disso tanto quanto eu. Seu pai também aprova, ele não tira os olhos de nós! – O cavaleiro começou a beijar o corpo da jovem.  Com a faca, o cavaleiro começou a rasgar o vestido verde de Elizabeth. Ele acariciava seus seios.
Elizabeth fechou os olhos. Tentou pensar nas montanhas, tentou pensar em sua família, lembrou de Illar. “Me ajude, Sir Illar!”
Ouviu o som de uma lâmina.
Quando abriu os olhos, viu que a espada de seu pai havia atravessado o pescoço do soldado de ponta a ponta, seu sangue jorrava em Elizabeth.
Edson encontrava-se de joelhos, segurando o cabo da espada. A esperança durou apenas alguns segundos, logo Edson tombou.
Elizabeth correu e virou o rosto do pai, ela o beijava e o chamava desesperadamente. Edson lutava para respirar. O armeiro sorriu ao ver o rosto de Elizabeth. 
- Minha fagulha...sempre tão destemida. – Os olhos de Edson enchiam-se de lágrimas – Saiba que eu te amo minha filha, eu te amo muito! Perdão, não conseguiu proteger vocês.
As lagrimas de Elizabeth escorriam e molhavam o rosto de seu pai.
- Pai, você ficará bem! Eu vou te ajudar, eu vou buscar ajuda! Só não deixe sozinha aqui, por favor! – Elizabeth abraçou o pai com muita força.
Edson continuou.
- Perdão, perdão...encontre Illar, ele vai lhe ajudar. Você... – Edson lutava para falar – Saiba que eu te amo...você é uma Karth, vai conseguir sem mim. Precisa conseguir.. – Os olhos de Edson já não fitavam nada. Seus olhos estavam em silêncio.
- Não me deixe aqui, pai! – Elizabeth socava o corpo de Edson – Por favor! Eu te amo muito pai, não me deixa aqui! Por favor, não me deixa!
Edson estava imóvel.
- Pai? acorde, pai! Por favor! Não me abandone!
Mas era tarde de mais, Elizabeth estava sozinha.
A mão esquerda da jovem pingava sangue. Ao levantar-se, Elizabeth viu o medo. Estava em todos os lugares e principalmente, em sua alma.
Nunca mais iria ouvir a longa gargalhada de seu pai. Nunca mais iria bagunçar o cabelo do irmão. Nunca mais iria abraçar sua mãe, sua velha ursa.
“Encontre Illar, ele vai lhe ajudar...você é uma Karth...”. Elizabeth soluçava.
“Coragem, você é uma Karth”.
Ela retirou a espada do pescoço do cavaleiro e correu para fora de casa, com os olhos fechados, não queria ver os corpos daqueles que mais amava. Não suportaria ver tudo outra vez. Nunca mais.
Elizabeth agora fitava o caos. Podia enxergar o castelo do rei em chamas a distância. Toda a sua vila encontrava-se em ruínas e muitos soldados saqueavam e matavam todos que tentavam resistir. Crianças berravam. Mulheres eram violadas, ali mesmo, no mundo gelado, pintado de branco.
Elizabeth correu em direção a escuridão, correu em direção as ruelas e então, parou. “Eu te amo” Elizabeth caiu de joelhos. “Minha fagulha...tão destemida” Elizabeth colocou as mãos sob os ouvidos. “Perdão” Elizabeth gritou. Exigindo o silêncio. Exigindo sua família de volta. E a neve caia.

Capítulo 13 - A reunião Karth

Illar quase havia perdido a sua vida, tinha presenciado o retorno do rei de Maros assim como chegou ao seu conhecimento sue inevitável fim.
Uma pequena comemoração marcava a sua última noite no Berço das estrelas, um jantar especial em nome do pequeno George, filho de Edson Karth. George comemorava seu sexto ano de vida.
O caminho até a casa de Edson era íngreme e Illar começava a sentir dores em sua perna esquerda.
“Estou velho” Há não muito tempo atrás, o cavaleiro solitário correria pelo caminho íngreme durante horas sem cansar.
Illar avistou uma figura enorme de colete marrom, carregando um corpo de javali no ombro esquerdo. Não demorou muito até reconhece-lo.
O cavaleiro correu até Edson e lhe deu um leve pontapé nas pernas.
- MAS QUEM FOI O FILHO DA.. – Edson virou-se e deu de cara com Illar caindo na gargalhada.
- Mas você enlouqueceu? Pensa que tem dez anos? Bah! – Edson resmungou durante algum tempo, mas logo se acalmou e então os dois amigos seguiram caminho.
- Edson, se não me falha a memória, sua filha não gosta muito de carne de Javali.
Edson sorriu e ergueu um grande peixe dourado que carregava na mão esquerda.
- É por isso que também estou levando esse cara feio aqui.
O cavaleiro contou tudo o que havia acontecido ao armeiro, omitindo apenas a parte em que os dias do rei estavam contados e que uma guerra era quase inevitável.
- Então, vou ter que entregar ao rei uma espada que não me pertence?
Illar baixou a cabeça.
- Infelizmente. Acredite, eu fiz tudo o que pude.
O armeiro abriu um largo sorriso e deu um tapa nas costas do cavaleiro solitário.
- Háhá! Deixa pra lá, só deixe-me entrega-la a você amanhã. Eu a deixei na armaria. Illar concluiu que não haveriam problemas se a espada fosse levada até o castelo na manhã do dia seguinte.
Estranhamente, desde o momento em que avistaram a casa, Edson controlava-se para não cair na gargalhada, Illar conhecia o armeiro a bastante tempo para saber que tinha alguma coisa errada.
- Edson – Illar fez sinal para que o armeiro para-se. A casa estava a menos de trinta passos de distância – Qual o motivo de conter o riso?
Edson estava totalmente vermelho.
- Que riso?
Não aguentou, o grande armeiro caiu na gargalhada, mal conseguia manter-se em pé.
- O quê foi que você fez? – Illar não sorria.
- Eu não fiz nada! Só temos um convidado especial para o jantar de hoje.
Convidado especial? Bom, isso não poderia ser tão mal. Illar concluiu que Edson poderia estar bêbado. Deu os ombros e seguiu caminho.
Edson não bateu, apenas abriu a porta de sua casa e adentrou. O armeiro fez sinal para que Edson entrasse.
“Mas que grande filho da puta!” Agora tudo fazia sentido. Ao lado da lareira, sentada em uma cadeira detalhada em madeira, estava ela, Lisa, a paixão de Illar.
O cavaleiro se deu conta de que jamais deveria ter contado nada a Edson. Illar fez sinal para que Edson o acompanhasse até o lado de fora.
- Edson, seu miserável! O que ela está fazendo aqui?! – Illar fervia de raiva.
- Vamos lá, Illar! Eu estou lhe fazendo um favor e eu juro que não tive a intenção! A mulher conheceu ela a pouco tempo... – Illar retrucou – E eu aposto que você se esforçou muito em evitar que ela fosse convidada, não foi?
Edson enrubesceu.
- Na verdade fui eu quem a convidei, mas vamos lá! Ela não vai lhe arrancar nenhum pedaço!
“Não, mas eu vou lhe arrancar a cabeça seu gordo maldito!” O cavaleiro solitário estava furioso, e concluiu que deveria ir embora, mas logo surgiu Elizabeth e insistiu para que os dois entrassem logo, afinal, a noite já havia chegado acompanhada de uma grande nevasca.
- Deixe-me apresenta-la a você, Illar, essa bonita dama é a Lisa. - Disse a velha ursa, sorrindo.
Lisa sorriu e levantou-se.
- Creio que nós já tenhamos sido apresentados, eu conheço Illar a algum tempo. Ele já comprou algumas flores em minha loja, mas confesso que nunca tinha lhe visto sem a armadura.
Como um cavaleiro real, Illar passava a maior parte do tempo usando armadura e capa, mas no encontro de hoje, o cavaleiro usava um simples gibão marrom com detalhes azuis.
Illar deu os ombros.
- Confesso que também nunca vi mais bela dama. Também confesso que nunca vi o velho Edson sem esse maldito colete marrom.
- E eu confesso que não sabia que você gostava de flores – indagou Edson. Illar encarou o armeiro com sua melhor expressão de demônio.
- Mulher! – berrou Edson - Temos um banquete para preparar! – Edson jogou o enorme javali na grande mesa de madeira. Tentando ser engraçado, o armeiro colocou o peixe dentro da boca do corpo de javali, a brincadeira não durou muito, Elizabeth achou tudo muito nojento.
- E onde está o pequeno George? – Illar ainda não havia avistado o pequeno filho de Edson.
- Estou aqui, bem atrás de você! Há-há, eu conseguiu surpreender um cavaleiro de verdade!
E de fato conseguiu, Illar não percebeu quando o pequeno garotinho esgueirou-se por trás de todos até dar de cara com as costas do cavaleiro solitário.
Illar agachou-se para ficar cara a cara com o pequeno George.
- Eu soube que você sonha em ser um grande cavaleiro.
George uma estranha careta.
- Na verdade eu quero ser rei!
“Eu teria de mata-lo antes disso” Illar entendia que era um sonho de criança, mas nunca passaria disso. O trono era ligado a família Tarth e jamais poderia ser tomado.
Illar expressou seu melhor sorriso e entregou um pacote vermelho ao garoto.
- Hoje é seu dia. E todos gostamos de presentes, espero que goste deste.
Entusiasmado, George rasgou o pacote. Os olhos do garoto brilharam ao dar de cara com o conteúdo do pacote.
- Essa é uma capa usada pelo verdadeiro rei de Maros. Ele a entregou a mim a muito tempo, como um sinal da mais alta honra real. Espero que faça bom uso dela.
Imediatamente, George amarrou a capa verde no pescoço, agarrou uma espada de madeira e saiu proclamando que era um rei de verdade com a capa arrastando pelo chão. Tropeçando nela, algumas vezes.
Illar fez sinal para que Edson o acompanhasse até o lado de fora novamente e então,
Illar concluiu que não havia problemas e os dois amigos seguiram novamente para a dentro da casa.
Um longo tempo passou. Enquanto a grande ursa preparava o jantar, Illar, Lisa e Elizabeth divertiam-se contando histórias. Lisa exibia longos sorrisos para Illar, o deixando sem jeito. O cavaleiro era bom com a espada, mas péssimo quando o assunto era romance. Em determinado momento, Elizabeth tentou iniciar uma conversa sobre iniciar um treinamento de combate com a espada, mas logo foi interrompida por um berro da grande ursa anunciando o jantar.
A tradição dizia que o aniversariante deveria entregar o primeiro pedaço do javali a quem bem entendesse, no caso de George, foi ele mesmo. Nada mais justo.
Ironicamente, Illar teve de sentar-se ao lado de Lisa na mesa. O cavaleiro evitava olha-la diretamente nos olhos, sem sucesso.
A dama estava radiante, tinha longos cabelos louros e sua pele era tão pálida que lembrava neve. Seus lábios pareciam pintados, pois tinham uma curva perfeita e seus olhos eram do verde mais profundo.
- E então Illar, como vão os amores?
Edson deu uma piscadela para Illar, que naquele momento, desejou decapitar o armeiro.
- Meu compromisso é com o reino, você sabe disso.
Lisa não concordou.
- Ninguem deve privar-se do amor, nem o mais nobre dos guerreiros. Dizem que o amor pode deixar um cavaleiro imbatível!
- É verdade, ela tem razão! – Disse Edson com a boca cheia de Javali. Elizabeth usava a palma da mão como escudo, protegendo-se dos restos de comida que voavam da boca do armeiro.
- Pai, por favor!
- O quê foi? – retrucou Edson e todos caíram na gargalhada.
Nem Edson e nem George entenderam o motivo.
- Pai, o quê é um Chomt? – perguntou o pequeno aniversariante.
Edson ficou de pé, colocou a língua pra fora e fez uma careta.
- Imagine uma lagartixa com o meu tamanho e este rosto. Agora adicione garras enormes e um punhado de dentes afiados.
George pareceu não compreender.
- Pai, você é um Chomt?
Elizabeth resmungou alguma coisa enquanto Edson gargalhava.
- Que tipo de flores você comprava no estabelecimento de Lisa? – Perguntou Elizabeth a Edson. A jovem parecia confusa.
- Eu acho que ele não estava muito interessado nas flores. Rá!
Illar chutou Edson por baixo da mesa.
- Que foi?! – Perguntou o grande armeiro, que soluçava de tanto rir.
Illar começou a explicar.
- Eram flores Glu, Elizabeth. São azuis e se você cheirá-las durante alguns segundos, passará o resto do dia com um aroma agradável no nariz. Eram geralmente usadas por – Lisa continuou – soldados, no cambo de batalha. Para afastar o mal cheiro dos corpos.
Illar ficou sem palavras, estava impressionado.
- Vejo que sabe algumas coisas sobre a guerra, Lisa.
A linda moça sorriu.
- Eu acho que poderia até vence-lo em um combate.
Illar franziu o cenho.
- É brincadeira! Estou brincando com você.
Os dois sorriram e Illar enrubesceu.
O jantar seguiu durante várias horas, a medida em que o tempo passava, Illar gostava mais e mais de Lisa e já não estava tão irritado pelo fato de Edson convidá-la para o jantar, pelo contrario, sentia-se muito feliz por isso.
- Amanhã, partirei até as montanhas Flormel. Vou explorer cavernas e destruir pedras, em busca do material que foi usado na construção da espada que me foi roubada! – Anunciou Edson, em determinado momento.
Elizabeth franziu o cenho.
- Roubada?
Edson deu os ombros e disse que explicaria tudo mais tarde. Pouco antes do fim, Elizabeth perguntou se alguém gostaria de ouvir uma história sobre a lua e todos responderam um “Não!” em coro, deixando a jovem um pouco chateada e fazendo com que todos caíssem na gargalhada. Illar sentia-se mal por já ter respondido que não tinha família, já que para ele, ali estava toda a família de que precisava.
George já dormia em um tapete no chão O garoto estava rodeado de miniaturas de soldados de madeira e Illar despedia-se da família Karth. Pouco antes de sair, Illar perguntou a Lisa se poderia acompanha-la até sua casa. Lisa assentiu.
- Eles formam uma bela família, os Karth. – Comentou lisa. Seus cabelos balançavam de um lado para o outro, com o brilho da lua refletido em alguns fios.
- Eu os conheço a bastante tempo. Os Karth sempre foram muito leais ao rei.  – disse Illar.
A casa de Lisa ficava na parte mais alta e íngreme do Berço da vida, seria uma longa caminhada até lá, o cavaleiro solitário não poderia deixar o silêncio surgir.
- Eu espero não estar enganado, mas notei um leve interesse seu em histórias de combate.
Lisa sorriu.
- Meu pai sempre me contava grandes feitos de exércitos de cavaleiros. As vezes, contava alguns de seus feitos em combate, pode-se dizer que eu gosto um pouco sim, apesar de achar horrível, mas na verdade foi você quem me impressionou.
- Por quê? – indagou Illar
- Um cavaleiro que não teme as flores. Geralmente quem sabe usar uma espada acha que terá a honra destruída se for visto com uma rosa.
Illar ficou taciturno. Lisa tentou mudar de assunto.
- Eu sempre amei as flores, sabe. Eu gostaria de saber tudo sobre as pessoas, mas não se pode saber tudo sobre elas. – Lisa agachou-se e, com delicadeza, arrancou uma flor mel de um canteiro ao lado da estrada de pedra - Mas pode-se saber tudo sobre uma flor. Você pode sentir seus sentimentos, sentir seus desejos e admirar sua beleza.
- Não entendo de flores, mas sei reconhecer a beleza das coisa e digo você é tão bela quanto a mais bela das flores – Declarou Illar. Lisa pareceu ignorar o comentário.
- O inverno, eu o odeio. Ele acaba com a cor do nosso mundo e me sinto tão só.
- Você tem família, Lisa? – O cavaleiro solitário tentou fazer com que seu elogio estupido fosse esquecido. A pergunta pareceu incomoda-la um pouco.
- Eu já fui casada com um mercador. Certa noite, ele partiu em uma viagem em busca de mercadorias. Graças a uma benção dos deuses ele foi assassinado na estrada do rei.
Illar ficou paralisado.
- Uma benção? Como uma morte pode ser uma benção?
Lisa tirou uma mecha de cabelo do rosto.
- Sim, uma benção. Eu agradeceria se você não tocasse neste assunto. – A voz de Lisa estava um pouco alterada.
- Perdão – Disse o cavaleiro solitário.
Lisa corou.
- Eu que lhe peço desculpas, fui rude, mas como eu disse, não se pode saber de tudo certo? As pessoas são o que são e ponto. A neve vem e volta, assim como sol. – Lisa começou a cochichar – A neve tem segredos, a lua tem segredos, você e eu temos segredos e... – Lisa agora fitava o chão – horrores. A vida é fria e triste, mas existem as flores e é nelas que eu confio. Sir Illar, foi uma honra, mas acho que posso seguir sozinha daqui, tenha uma boa noite! – Lisa fez uma leve reverência informal e seguiu o caminho íngreme com seus cabelos dançando ao som do vento.
Illar observou até ela sumir de vista, paralisado e lamentando, pensando ter estragado tudo.

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O cavaleiro seguia em direção ao estabelecimento de Edson. Illar estava de mau humor pela noite anterior.
Ao aproximar-se do estabelecimento, o coração de Illar paralisou. Cinco soldados da patrulha da cidade aglomeravam-se em na frente da armaria de Edson.

Para o alivio de Illar, Edson apareceu em meio aos soldados resmungando muito alto. Sua careca brilhava e sua pele estava vermelha. De raiva.
- O quê aconteceu aqui? – Illar perguntou a Edson, enquanto observava um amontoado de telhas de barro espalhadas no interior da loja.
- Algum ladrão desgraçado invadiu a minha loja! – Edson estava prestes a enforcar todos em sua volta.
“Parece que o urso Karth despertou!” pensou Illar.
- Edson, eu sinto muito por isso, mas eu devo partir em algumas horas e preciso da espada.
Edson socou a parede.
- Esse é o problema, a espada negra foi a única coisa roubada!

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Nas ruelas mais escuras e baixas do Berço das Estrelas, Robin mancava por alguns ferimentos no calcanhar, mas sentia-se triunfante, afinal, além de joias, ele havia conseguido uma estranha espada de lâmina escura. Ele sorria, segurando o silêncio.

Capítulo 12 - O trovão e o salto do ladrão

- BAIXEM AS ESPADAS, EM NOME DO REI!
E sua voz soou como o mais sonoro trovão na noite mais conturbada.
De imediato, os soldados congelaram, Jullius encontrava-se boquiaberto, soltou sua lira, que acabou destruída no chão.
Ele usava máscara, um tapa olho azul no olho esquerdo e tinha os cabelos longos e negros como a noite. O rei de Maros ressurgirá e apoiava-se em sua filha, Sara. Ambos eram acompanhados de um homem também mascarado, encapuzado em um manto branco com detalhes em vermelho, que fitava tudo em pânico.
Sir Illar pôs-se de joelhos, todos os guardas seguiram seu exemplo, Jullius tremia.
- Meu....meu...meu irmão! – Jullius recuava a medida que o verdadeiro rei de Maros aproximava-se do trono com ajuda da dama silenciosa.
- Você não crê no que vê, irmão? Eu também não. Eu o deixei neste trono com um fundamento, o que foi que eu lhe disse no dia em que cai em trevas? – O rei de Maros agora apoiava-se no trono, mas seu único olho estava fixo no rosto de Jullius, a voz real, que balançava a cabeça de um lado para o outro, tremia e recuava.
- Meu irmão, eu... – Jullius gaguejava -
- O QUE FOI QUE EU LHE DISSE?! – Outra vez, o som de sua voz invadiu toda a sala como um trovão.
- "Jamais exiba poder, use-o para o bem maior!" – Jullius estava derrotado, baixou a cabeça e agora fitava o chão.
- Vejo que se lembra das minhas palavras, mas não fez delas seu exemplo! Como ousa mandar o comandante nomeado sob minha confiança para a morte?! – O rei de Maros estendeu o indicador em direção a Illar – LEVANTE-SE, SIR ILLAR GARTH!
E assim fez o cavaleiro solitário, que pela primeira vez em anos, exibia um sorriso esperançoso no rosto. Depois de um longo tempo, o trono voltava a ser finalmente usado pelo verdadeiro rei de Maros, Gramorn Tarth.
O rei exigiu que o cavaleiro solitário explicasse os detalhes que levaram a sua sentença de morte. Sir Illar não hesitou, contou tudo ao rei. A cada frase que Illar pronunciava Jullius o fitava com mais raiva, o rei assentia e, estranhamente, tossia muito.
- Então você pretendia arrancar o coração do nosso melhor cavaleiro por causa de um simples espada negra?
Jullius enrubesceu.
- Sir Illar tem sido arrogante e vem desobedecendo a inúmeras ordens reais há muito tempo! A espada foi o fim! Foi o máximo que pude suportar! Se deixar que um soldado desobedeça as regras, todos o seguirão e assim o reino ficará em ruínas!
Gramorn gargalhou.
- Ordens reais? Você é só um garotinho que fede a bosta! Eu apostaria minha cabeça que Sir Illar teve razão em todas as vezes em que lhe desobedeceu!
Jullius abriu a boca, mas o rei fez sinal para que ele se calasse e seguiu.
- Sobre a espada, eu tenho total confiança em Thim. Se ele julga que a espada é perigosa, então não tenho escolha se não tomá-la do armeiro. Illar, Edson é um Karth, a família mais leal a minha, ele entenderá e lhe será pago o necessário para que o verdadeiro dono da espada não fique ofendido.
“Será que o rei também enlouqueceu?” Illar não conseguia entender. Tratava-se apenas de uma espada de lâmina negra, que ameaça ela poderia representar a todo um reino?
- Meu rei, se é essa a sua vontade irei pessoalmente pegar a espada, mas ainda não vejo sentido em tal ato. É sábio confundir a realidade com contos infantis?
Thim preparava-se para reclamar, mas a voz do rei foi mais alta.
- Contos infantis foram escritos em sua maioria por adultos e, em sua maioria, representam os medos de todos nós.  Toda história, qualquer que seja, tem algum vestígio da realidade, talvez em sentimentos ou, de certa fora, de forma tangível.
Illar assentiu e decidiu que não valia a pena levar aquele assunto adiante. O por do sol já deixava o céu em tons de laranja. O rei dispensou grande parte das pessoas do salão do trono, restando na sala apenas sua filha, que sorria e acariciava o cabelo do pai, Jullius, que parecia ter fitado milhares de fantasmas, o homem envolto em branco e o cavaleiro solitário, que agora preparava-se para tratar de assuntos de real importância com o rei.
Sir Illar não gostava de admitir, mas agora finalmente entendia os motivos do rei ter ficado tanto tempo afastado. A doença estava destruindo aquele que um dia foi a pessoa mais forte que ele conhecerá, mas mesmo com toda sua aparência debilitada, a voz do rei seguia forte.
- Minha princesa me contou uma história em seus desenhos. Era sobre um rei néscio que ignorou os conselhos de um galante soldado e estava colocando anos de paz em tormento.
O cavaleiro solitário riu.
- Mude o galante soldado por um velho e cansado cavaleiro e terá a atual situação do reino de Maros.
O rei não sorriu, apenas pediu que Illar lhe contasse o que estava acontecendo entre os dois reinos.
À medida que Illar contava, o rei ficava mais e mais espantado. Em certo ponto, o rei levantou-se do trono, e sem apoiar-se em ninguém, foi em direção a Jullius e socou o irmão diversas vezes, sendo necessária a intervenção de Illar.
- Não temos tempo, reúna o maior número de soldados possível para nossa proteção e deixe os melhores aqui para a proteção do castelo e para a proteção pessoal de minha amada filha. Você tem esta noite para despedir-se de quem ama, pois ao fim do dia de amanhã, partiremos para o círculo da paz para negociar com o rei do norte. Não há garantia de retorno, você me acompanhará, como meu conselheiro, Sir Illar.
O rei apoiou-se em sua filha e antes de deixar a sala do trono, olhou uma ultima vez para Jullius, que tinha o rosto manchado de sangue. O rei baixou a cabeça.
- Eu confiei em você, meu irmão, e você destruiu tudo aquilo que lutamos para erguer. Espero que tenha aprendido com seus erros.
Dessa vez a voz do rei soou como um lamento.

__________

O cavaleiro solitário seguia para a saída do castelo, era sua última noite na capital. Talvez ele jamais voltasse a ver a capital.
- Espere! Comandante, espere!
Illar olhou para trás e fitou o homem de manto branco correndo em sua direção, apenas os olhos azuis do homem eram visíveis, já que além do capuz, ele usava uma máscara branca.
A medida que o homem se aproximou, Illar finalmente foi capaz de reconhece-lo, era o curandeiro da família real.
- Em que posso servi-lo? – Anos se passaram e Illar ainda desconfiava que, talvez, o curandeiro fosse a causa da doença do rei. Talvez ele usasse algum tipo de veneno para debilitar o rei. Não fazia sentido, mas Illar recusa-se a acreditar que um homem como Gramorn pudesse simplesmente adoecer e nunca mais sair de uma cama.
- Sir comandante, esse lugar é seguro para conversar?
Illar olhou para os dois lados e não avistou ninguém, concluiu.
- Creio que sim.
O curandeiro retirou o capuz, revelando nenhum cabelo e retirou a máscara.
- Comandante, preciso lhe pedir uma coisa e explicar muitas outras. Eu o deixei confinado em seu quarto durante todo esse tempo por um bom motivo: Nunca vi doença igual. Não existe cura e com base em algumas informações que obtive ao longo dos anos, é altamente contagiosa! A máscara que ele está usando evita que ele contamine as pessoas ao seu redor com a tosse, mas um simples toque em sua pele pode ser o bastante para ser contaminado.
“Diga logo que é um veneno!” Era o que Illar realmente gostaria de ouvir.
- Você viu a pele dele? Viu o tapa olho, a máscara?
Illar assentiu e o curandeiro continuou.
- O olho esquerdo do rei simplesmente escorreu pelo rosto, e já não existia mais branco, apenas a escuridão! O rei tosse sangue negro, as manchas em seu corpo transformam-se em feridas da mesma cor!
O curandeiro começou a soluçar.
- Eu já ministrei todo o tipo de poção, todo o tipo de cura e nada funciona!
Ele agora segurava o ombro de Illar.
- O rei não vai resistir a viagem até o círculo da paz, talvez, com bastante sorte, ele consiga chegar até o local e resolver os problemas com o norte, mas eu garanto que em algum momento em seu retorno, o rei deixará este mundo. E isso será  bom, não me entenda mal, o rei precisa morrer, se essa doença se espalhar... - O curandeiro recuou.
Illar estava tonto. Os problemas que estava prestes a enfrentar eram bem maiores do que ele havia imaginado. E se o rei deixasse o mundo antes de negociar com o norte? E se o rei morresse em seu retorno a capital e Jullius assumisse o trono? O mundo girava.
- A morte do rei é inevitável, sir Illar, mas durante toda essa viagem, você tem que me prometer que manterá o rei isolado de todos, que usará máscara ao aproximar-se dele e luvas para tocá-lo se necessário.
O curandeiro olhou nos olhos de Illar e foi como se ele estivesse, agora, tocando a alma do cavaleiro solitário.
- E o mais importante de tudo, prometa-me que fará o impossível para que o rei deixe o trono para alguém digno, que fará com que o rei esqueça a ideia de deixar que Jullius sente-se novamente no trono!
Illar olhou nos olhos do curandeiro.
- Eu juro.

__________

Já era quase noite no Berço das Estrelas e Illar seguia até a casa de Edson, onde todos deveriam comemorar mais um ano de vida do filho mais novo do armeiro. "Passarei meu último dia no reino comemorando o futuro de um Karth" Illar sorriu e seguiu seu caminho.
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Um ladrão corria desesperadamente pelas ruelas do berço do ouro.
Robin tinha a vantagem, mas dez cavaleiros o perseguiam e gritavam para que alguém parasse o ladrão. Alguns tentaram, mas Robin era rápido, esquivou-se todos e, quando restava algum tempo, xingava-os. Ao passar por uma loja de frutas, Robin agarrou uma maçã enquanto e seguiu correndo, dando enormes mordidas na suculenta maçã sempre que possível e sempre em movimento.
Ele correu por uma ruela estreita, cheia de lojas inapropriadas para damas e cavalheiros descentes. Apoiou-se na parede de uma loja chamada “Chama das damas”.
Robin estava exausto e finalmente parecia ter despistado os cavaleiros, bom, foi o que ele achou.
Assim que avistado, todos os cavaleiros seguiram pela ruela estreia, Robin pôs-se a correr novamente. Seguiu correndo por inúmeras ruelas, um cavaleiro quase o alcançou, mas em um giro, Robin jogou o caroço da maçã no rosto do cavaleiro, assustado, o soldado recuou, mas sentiu-se como um idiota ao perceber que assustou-se por um simples caroço de maçã.
Robin seguia correndo, de ruela em ruela, cada vez mais e mais estreitas, até que deparou-se em um beco sem saída. Robin xingou a parede, virou-se para sair do beco, mas já era tarde, os cavaleiros avançavam com cautela em sua direção com um sorriso malicioso no rosto. Não existia saída, Robin estava encurralado.
- Rapazes, francamente? Não podemos conversar como cavalheiros? - Sugeriu o ladrão.
Um soldado gargalhou.
- Eu vou enfiar a ponta da minha espada na sua bunda e girar. Isso é bastante cavalheiresco pra você, ladrão?
Robin ficou sério.
- Não, vocês são muito grosseiros. Querem saber? Acho que vamos continuar com a corrida.
Em um giro, Robin deu um salto em direção a parede e agarrou-se em uma pedra em relevo na parede, inclinou o corpo na direção oposta e jogou-se para o telhado do estabelecimento.
Robin observava os soldados do alto telhado do estabelecimento. Eles o xingavam muito. Robin deu uma palmada na própria bunda e a abanou em direção ao guardas. Ele não deveria ter feito isso, os soldados ficaram tão enfurecidos que decidiram também escalar a parede.
Robin novamente corria, agora no telhado do estabelecimento, o ladrão saltava de telhado em telhado, de loja em loja, de taverna em taverna, deu uma olhadela para trás e viu que graças ao peso das armaduras, os soldados acabavam quebrando as telhas de barro e caindo estabelecimento adentro.
Robin gargalhava e continua a saltar os telhados do berço do ouro.
“Eu sou perfeito!” Pensou o ladrão.
Ele saltou para um telhado cor de laranja e escorregou para trás. Robin deu de cara no telhado laranja e antes que pudesse levantar-se, o telhado cedeu e o ladrão caiu estabelecimento adentro.

Capítulo 11 - A sentença do rei

Sir Illar percorria um longo corredor até o salão do trono, onde fora convocado pela voz real com certa urgência, mas seus pensamentos estavam além, pois na noite daquele mesmo dia, Sir Illar tinha um compromisso com seu amigo armeiro, afinal, seria um dia de celebrações para o clã Karth, seria o nono ano de vida do pequeno filho de Edson.
“Um pouco de comemoração me fará bem” O cavaleiro solitário estava fraco e lento, seus dias de glória já estavam distantes, faziam dias que Illar não tinha o devido tempo de sono, só conseguia pensar em quão eminente era a guerra com o norte e a convocação de Jullius ao salão do trono não deveria trazer boas notícias.
Sir Illar adentrou na sala do trono, que como sempre, encontrava-se demasiada escura, com alguns raios de luz solar invadindo o local por vidraças, do alto das detalhadas paredes azuis.
A luz delineava a imagem do “rei” Jullius, apoiando-se de perfil no trono, com os pés apoiados ao lado do trono. A voz real sorria e dedilhava uma canção em uma pequena lira.
“Uma péssima canção vinda de uma péssima pessoa” concluiu Illar.
Algo estava errado, os cavaleiros que cercavam Jullius não eram da guarda treinada por Illar, o cavaleiro não conseguiu reconhecer nenhum dos rostos.
Todos usavam armaduras negras e carregavam duas espadas consigo, na cintura e outra amarrada a capa azul, nas costas.
- Aqui estou, senhor voz do rei, em que posso ajudá-lo? – Illar fez uma leve reverência, um tanto sarcástica.
- Sir Illar, que enorme prazer! Chegou aos meus ouvidos que o sir gosta de zombar de sábios...
Jullius se colocou de pé e, enquanto falava, marchava de um lado para o outro dedilhando notas sem sentido em sua lira, o rei continuou.
- Por que você negou a espada lendária ao mestre da sabedoria?
Agora Illar notará a presença de Thim, o mestre do silêncio ao qual ele havia negado entregar a espada negra, que se encontrava com o armeiro Edson.
- Com todo o respeito, eu acho que o reino tem assuntos de maior importância no momento, devemos focar nossos esforços em evitar uma guerra, deixemos a espada conto de fadas para mais tarde.
Illar não podia acreditar que tinha sido convocado por tal motivo, era um absurdo, convocar o capitão da guarda real para tratar de um assunto tão imoral.
- O norte? Sir Illar, mandei uma carta ao lorde de Roventus. Eu o informei de todos os acontecimentos, da ameaça do norte e de sua covardia em tentar implorar uma trégua. Você sabe o que ele respondeu? Ele fez uma canção! – Jullius sentou-se no chão, em frente ao trono,  e começou a dedilhar sua lira – Ele disse que a canção não tinha nome, mas gosto de chama-la de "A canção do nobre" ouça:

‘“Ajude-me!” soava por todos os cantos
a fumaça juntava-se aos prantos
paliçadas, marcando o encanto
de jovens, que já não vêm encanto
em um mundo, no qual não existe descanso
mas no fundo, amado será seu esforço
a morte, tem lá seu encanto.

E não há nada melhor do que o sangue
jorrando do opositor
“avante!” esse é o nosso acerto
e o mundo, volta a ter lá seu encanto
no campo, com batalhas em todos os cantos!’


A canção não parecia vir do lorde de Roventus, Sir Illar já havia lutado ao seu lado outrora e lembrava-se bem: O lorde de Roventus repudia a guerra. E isso não parecia ser o que a canção clamava. A canção enaltecia a guerra.
“E apenas os loucos enaltecem a tal barbaridade” O cavaleiro solitário estava confuso, não sabia o que dizer, apenas ficou em silêncio, enquanto Jullius aplaudia a própria performance.
- Roventus possuí o maior exército de toda a Maros e como você mesmo ouviu, o Lorde de Roventus gosta do som de braços quebrando e cabeças rolando! – Jullius soltou uma risada histérica e voltou a sentar-se no torno.
- Mas, isso já não lhe diz respeito, a partir de hoje você não é mais capitão guarda real, você traiu o reino ao desobedecer uma ordem do mestre do silêncio, você recuou-se a entregar a espada. E você sabe o que acontecem com traidores, não sabe?
Jullius não sorria, um feixe de luz iluminava apenas seus olhos negros, deixando o restante de sua face escondida nas sombras, no silêncio.
- Meu rei, eu não quero isso, eu só quero a espada! Sir Illar é um bom cavaleiro, deixe-o ir! Isso não faz sentido, você não pode...não pode!
Implorou Thim, que parecia arrependido por tudo que estava acontecendo.
Sir Illar ouviu o ranger das grandes portas do salão do trono sendo lacradas, ele não tinha saída, posicionou-se e colocou sua mão direita no cabo da espada.
Jullius rugiu.
- Sir Illar, o cavaleiro solitário, eu o condeno a morte por traição. Guardas, me entreguem o coração deste traidor!
Trinta e cinco espadas brandiram no ar. Sir Illar ergueu sua lâmina que brilhou contra um feixe de luz.
"E no monte do fim tudo começa" O cavaleiros solitário fechou os olhos, Thim gritava por piedade.
A guarda real correu em direção ao cavaleiro solitário.
- Piedade!
Sir Illar preparou a espada.
- Pelos deuses, piedade! parem!
 e o som do trovão abalou a sala do trono.

Capítulo 10 - A canção do marinheiro


Madame Lorth não era conhecida por possuir uma grande beleza, talvez pelo contrário. Ela era uma das mulheres mais ricas de todo o reino de Maros e adorava desfilar pelas ruelas do berço do ouro acompanhada de dois cavaleiros, para sua segurança.

Todos sabiam que ela não era uma mulher muito feliz, já que seu marido, Lord Jake Lorth, havia se casado com ela apenas por interesse em sua fortuna.

Ela era estranha, magricela, seus olhos eram azuis e miúdos. Seu nariz parecia quebrado, seus cabelos eram cinzentos e ela desfilava por todo o lugar exibindo anéis de pedras preciosas em cada dedo da mão direita, assim como um belo colar de pedras da montanha de cristal no pescoço.

Robin já estava a observando a vários dias e decidiu que já era hora de agir.
Verificou os bolsos de seu gibão de couro e certificou-se que estava tudo lá. Arrumou o cabelo e seguiu em direção a madame.
Ao contrário da madame, Robin era bastante jovem, tinha a pele tão branca que ao menor contato com o sol já tornava-se rosada.
- Mas que bela manhã de sol, não acha, Madame Lorth? – Disse o jovem ao aproximar-se da magricela.
- De fato. Belíssima – Disse a madame sem dar muito atenção a Robin. Um de seus cavaleiros olhou de esgoela para Robin, mas ele não deu muita atenção.
- Se me permite a ousadia, a mesma manhã não teria tal beleza se a senhorita não estivesse desfilando pelo berço do ouro. – Tal comentário foi o suficiente. Agora Robin tinha total atenção da mulher de cabelo cinzento. A madame soltou risinhos.
- Assim você me deixa constrangida, mas agradeço o comentário gentil, senhor...?
- Robert, pode me chamar de Robert. – Disse Robin fazendo uma leve reverência que fez a madame enrubescer.
- Posso ser um pouco mais ousado? A senhorita permitiria que eu a acompanhasse em seu passeio nessa linda manhã? – A madame de Lorth deixou escapar um sorriso. – Depois de um comentário tão gentil, como poderia eu recusar? E chame-me de Morgana. – Ela agora tinha um estranho brilho nos olhos.
“Acaba de cometer um grande erro, Morgana” Robin deixou escapar um sorriso malicioso.
O “casal” passou toda a manhã caminhando lentamente pelas ruelas do berço do ouro. Robin percebeu que Morgana devia sentir-se sozinha já que não passou um minuto sem tagarelar sobre tudo. Ela estava adorando a companhia e ele, odiando.
Morgana comprava tudo que lhe era oferecido pelos vendedores desesperados do berço do ouro, Robin achou tal fato muito curioso.
- Certa vez, me ofereceram uma coleira para cachorro. Acabei comprando, mesmo não tendo um. – Disse Morgana as gargalhadas.
- Por quê você fez isso? - Perguntou Robin realmente curioso.
- Eu...eu não sei. Eu só não quero que as pessoas afastem-se de mim. Todos sabem que não sou muito feliz. Só não quero que pensem também que sou avarenta, tendo ajudar aqueles que não têm tanto quanto eu comprando o que me oferecem. Eu não espero que entenda isso, ninguém entende...
“Se não quer todo o seu dinheiro então entregue-o para mim!” foi o que Robin quis dizer, mas acabou sendo mais gentil.
- A senhorita é uma coisa rara, muito gentil, muito amável.Após muitos pedidos, Robin conseguiu convencer Morgana a ir até um jardim um pouco afastado das ruelas sem a presença de seus cavaleiros de guarda pessoal. "Enfim, sozinhos".
Robin agarrou a mão direita da madame com delicadeza, aproximou-a em seu rosto e a beijou.
- Seus mãos são delicadas, assim como você. – O comentário fez Morgana enrubescer e suspirar, mas Robin logo soltou sua mão, o jovem atirou-se de joelhos no chão.
- Perdão! Eu não queria ser tão ousado, perdão.
Morgana agarrou a mão de Robin e fez com que ele novamente ficasse de pé.
- Não tem o que perdoar, você está alegrando muito o meu dia, Robert.
“Você é minha” Tudo estava seguindo como o planejado e já era hora de agir.
- Aceite então este presente, senhorita.
Robin tirou um lindo anel roxo do bolso. Era decorado com uma estranha pedra azul.
Morgana sorriu e ergueu a mão esquerda para o jovem.
- Aceito, mas só se você coloca-lo no dedo que julgar ser o mais belo.
Robin segurou a mão esquerda de Morgana e a baixou com delicadeza.
- Anéis devem ficar na mão direita, senhorita. Sei que a senhora já tem anéis em todos os dedos de sua linda mão direita, mas permita-me que retire apenas um para que eu possa colocar no lugar este que lhe entrego de presente.
A madame pareceu um pouco confusa, mas assentiu.
Robin pegou a mão direita de Morgana, retirou um grande anel de ouro do dedo indicador e colocou o seu no lugar.
Sem que Morgana percebesse, Robin guardou o anel de ouro em seu bolso direito e agarrou outro muito semelhante em seu bolso esquerdo.
- Deixe-me devolver seu anel de ouro, senhorita. – Robin foi ousado, colocou o anel semelhante na abertura do peito do vestido de Morgana. O anel foi parar entre os seus seios. A madame enrubesceu.
- Ó Robert, eu sou uma mulher casada. – disse com um sorriso malicioso estampado no rosto.
- Sei disso e também sei que serei punido pelos deuses por lhe pedir o que lhe pedirei agora, mas eu não conseguiria dormir se não o fizesse. Permite-me beijá-la?
Morgana aproximou-se do rosto de Robin.
- Pensei que nunca iria pedir.
A madame praticamente agarrou o jovem a força. Ela estava saboreando cada minuto daquele beijo molhado. Estava apaixonada. Robin contava os minutos para que aquilo chegasse ao fim, mas precisava continuar. Ele a puxou para mais perto, beijou seu pescoço e logo em seguida voltou a beijar seus lábios. Com muita delicadeza, Robin retirou o calor de pedras da madame e o guardou em um bolso do gibão, no mesmo instante, agarrou outro semelhante e repôs no pescoço de Morgana, seguído de um beijo.
- Ó, Robert! Vamos até sua casa, ou para a minha. Meu marido está tratando de negócios com o rei. – Morgana estava com a respiração pesada.
- Eu não posso, isso seria errado, senhorita. Agora preciso partir, antes que faça algo contra a vontade dos deuses, mas voltarei a vê-la! Sonharei com este momento. Não se esqueça de mim!- Jamais! - disse Morgana, um pouco decepcionada.
Robin era um excelente ator, deixou escorrer até  mesmo uma lágrima ao despedir-se de Morgana. Após uma manhã bem sucedida, o jovem gatuno seguiu para sua taverna favorita, a dedos-leves. 
- Hoje a bebida é por minha conta!
Gritou Robin e todos na taverna ficaram eufóricos. Dançando, o jovem se dirigiu até o balcão da taverna onde sem muito esforço subiu. Com um assubiu chamou a atenção de todos, erguendo o colar de pedras da montanha na mão.
- Hoje foi uma bela manhã de trabalho, eu lhes entrego bebidas e em troca eu peço diversão!
Um balofo com tapa olhos bateu sua caneca na mesa.
- A CANÇÃO DO MARINHEIRO?
Robin sorriu.
- Seria perfeita, posso começar?

“Vestido de azul o belo Marinheiro navegou pelo céu azul,
do norte ao sul e das escuras ilhas ao cume do mundo.
Mas de seu capitão não pode esconder
que na navegação não colocava seu coração
pois seu verdadeiro ardor encontrava no vinho ao seu redor”

- Agora todos comigo!
E todos na taverna cantaram em coro.

“Marinheiro, marinheiro, marinheiro ébrio!
O reino de Maros nunca  viu homem igual
Sua garganta água nunca conhecerá!
Marinheiro, marinheiro, marinheiro ébrio!
Do sul ao norte ele pinta o mundo com o roxo do vinho!”


A taverna inteira socava as mesas e gritavam em coro a canção do marinheiro.Robin saltou do balcão para uma mesa e, dançando, continuou a canção.



“Mas pela bebida perdeu a paixão

quando seu ardor por ela finalmente começou
a bela donzela de cabelos negros ao mel lhe apresentou
agora ébrio por ela se tornará
mas pelos dois reinos sua canção continuaráMarinheiro, marinheiro, marinheiro ébrio!
O reino de Maros nunca  viu homem igual
Sua garganta água nunca conhecerá!
Marinheiro, marinheiro, marinheiro ébrio!
Do sul ao norte ele pinta o mundo com o roxo do vinho!”

Gritos e aplausos ecoaram pela taverna. Robin desceu da mesa onde estava e foi tomar ar próximo a uma janela, mas seu sossego foi interrompido pelo baque da porta.
- Justiça real!
Gritou um cavaleiro exibindo a bandeira do reino para o dono da taverna.

- Madame, pode entrar.

O cavaleiro abriu caminho para que a Madame Lorth entrasse no local.
Não foi preciso de muito, ela logo avistou Robin e apontou para ele aos gritos.
- Foi ele! Aquele maldito loiro me furtou! SEU DESGRAÇADO!
O Cavaleiro desembainhou a espada.
- Você está preso em nome da Justiça do Rei. Fique parado!
Robin não esperou muito, empurrou todos que estavam em seu caminho e subiu uma escadaria que encontrava-se ao lado do longo balcão da taverna. O Jovem adentrou em um quarto e de lá saltou por uma janela. 
“É por isso que sou conhecido como o gato do berço!” Pensou Robin já no chão. Já estava de saída quando decidiu dar uma olhadela para trás. Ficou pasmo. Em frente a taverna,  nove cavaleiros olhavam para ele com desconfiança.
- Ei, você! quem lhe deu permissão para saltar dessa janela?

Robin não segurou a língua.

- Sua mãe!
E antes mesmo que a Madame Lorth lhes dessem algum motivo, os cavaleiros já perseguiam Robin pelas ruelas do berço do ouro.