Capítulo 15 - A princesa, o reino e o ladrão

Sara fitava o extenso lago de um profundo azul. Gostava da brisa. Gostava ainda mais do som do vento que, com uma admirável força, fazia com que seus longos cabelos negros dançassem como folhas secas no outono.
Sara aproximou-se do lago e fitou a água esperando ver o seu reflexo, mas não foi isso que a dama silenciosa admirou. Uma raposa vermelha era refletida no lago, a criatura tinha uma espada negra cravada nas costas.
- Coragem... – sussurrou a raposa.
Sara virou o rosto, horrorizada. A dama fitou o chão e sorriu, seu sorriso desapareceu quando ela fitou o céu. Com uma assustadora tranquilidade, Sara retirou uma faca do interior do vestido e, sem pensar duas vezes, fez com que a lâmina beija-se seu pescoço.
Outra vez, Sara acordou em um disparo, exigindo gritar.  “Outro pesadelo”. Ela estava em seu quarto, no castelo do rei. Seu pai, ao lado de muitos cavaleiros, havia deixado o castelo há algum tempo. A presença do rei havia sido solicitada no círculo da paz e ele não se demorou a partir. Sara estava assustada e com raiva.
Meu pai volta ao mundo depois de um longo tempo e me abandona novamente na escuridão em menos de três dias” concluiu Sara.
A princesa levantou-se da cama e correu para a janela. A neve pintava todas as torres do castelo de branco, a luz da lua perfurava a névoa da noite e fazia com que pontos do castelo brilhassem. Ela adorava a vista. Amava o inverno, apesar da estação deixar todos no reino apavorados “É tão lindo, não há nada a temer.”
- Você é linda até quando acorda, minha sobrinha -  Sara assustou-se com a voz de seu tio, Jullius. Ela o odiava e sentia-se insegura desde que seu pai havia partido. Quando seu pai decidiu deixar Jullius novamente no trono, no período em que estaria ausente, Sara não pode acreditar. Depois de todo os danos que seu tio havia causado ao reino ela não entendia como seu pai havia cometido aquele enorme erro novamente e simplesmente não perdoava seu tio por tentar executar Sir Illar. Como não podia falar, a dama abanou as duas mãos para o tio em direção ao alto, com movimentos lentos, pedindo para que ele fosse embora.
- Calma, princesinha! Eu só estava observando você – Jullius aproximou-se de Sara, sorrindo.
- Seus cabelos – A voz real acariciou os cabelos da princesa – São tão lindos, eu gosto deles assim.
“Então devo arrancá-los” concluiu Sara.
Sara correu para o lado de seu cama, onde havia um grande baú vermelho, com um pouco de esforço, ela abriu o baú e agarrou um pedaço de pergaminho, pena e tinta. Não podia ter se expressado melhor. A princesa ergeu o pergaminho amarelado com um “VÁ EMBORA” em tinta fresca no rosto de seu tio.
- Quanta arrogância, saiba que enquanto o seu pai estiver fora eu tenho total controle sobre você. De certa forma... – Jullius agarrou o rosto de Sara e aproximou seus lábios aos dele – Você é minha, é submissa a mim.
Sara o empurrou para longe e disparou para a porta do quarto. Antes que chegasse, alguém deu rápidas e desesperadas batidas na porta.
- Lord Jullius, a cidade está sob ataque! Abra, por favor! Rápido, precisamos organizar nossa estratégia de combate! – O cavaleiro parecia bastante desesperado. Era possível sentir o medo em sua voz.
Jullius perdeu a pouca cor que tinha. O tio e a sobrinha encararam-se durante longos minutos e então, finalmente, a voz real criou coragem para abrir a porta e acompanhar o soldado, antes de sair, Jullius fitou sua sobrinha.
- Sara, acompanhe-me. Preciso manter você perto.
“Estão atacando a cidade? Seriam os famintos? Podemos vencer? Quantos são? Vamos todos morrer? Onde estão os cavaleiros?” eram tantas perguntas e Sara não conseguiria a resposta para nenhuma delas. Não sem uma voz. Sem ter outra escolha, a dama acompanhou seu tio até a sala do trono.
O jovem escudeiro tremia e rezava aos deuses. Jullius tinha o medo estampado em seu rosto. Sara não sabia o que esperar, só gostaria de ter seu pai por perto.
A sala do trono estava escura. A única fonte de luz chegava através das janelas, no alto da sala e, ironicamente, iluminavam apenas o trono. O trono iluminado pelo luar da escura e fria noite.
Jullius fez sinal para que a sobrinha esperasse e para que o soldado o acompanhasse.
“Onde estão as tochas?” perguntava-se Sara.
O jovem escudeiro de olhos negros e pele clara lamentou o que aconteceria em seguida.
- Perdão, princesa – O escudeiro levantou a voz.
- AGORA! – houve um berro e e então, disparos. Uma flecha em chamas atingiu o escudeiro em seu olho esquerdo, atravessando seu cérebro. Outras duas flechas não incendiadas atingiram Jullius no ombro e no tornozelo, respectivamente.
Sara tentou correr para as sombras, mas não adiantou, as tochas foram acessas e agora todo o salão era visível.
Mais de quarenta cavaleiros ocupavam a sala do trono e, entre eles, um erguia a inconfundível bandeira com o brasão de Roventus: Uma lâmina vermelha envolta em penas negras de pássaro.
A voz real apoiava-se no trono e urrava de dor. Sara correu para trás do tio, nunca entendeu porque o fez, mas fez. Ela o odiava, mas naquela sala, sozinha e cercada de inimigos, não havia melhor escolha.
- O quê em nome dos deuses é isso? Traição! – Berrou Jullius – TRAIÇÃO!
O cavaleiro alto que vestia uma armadura dourada desembainhou sua longa espada.
- Calado, Lorde Tarth! Este castelo pertence agora ao Lorde de Roventus, ou melhor, o reino de Maros pertence ao Lorde de Roventus! – berrou o cavaleiro.
- Espadas! – gritou um jovem escudeiro de armadura negra – Ao vento! – responderam todos os outros em coro.
- MEU SANGUE! – continuou o jovem escudeiro – PERTENCE AO VENTO, PERTENCE A ROVENTUS! – finalizaram os demais em coro.
- Traição? Bom, quem cometeu traição foi seu jovem escudeiro que, após perder a batalha na entrada do castelo, entregou você a mim, mas não se preocupe, eu já fritei o cérebro daquele traidor para você. – Disse o cavaleiro dourado, sorrindo.
Jullius esforçou-se para erguer-se, colocou toda sua força no braço esquerdo, que estava apoiado ao trono. Mesmo com todo o esforço, a voz real caiu e bateu o rosto no chão.
- Malditos, esse é o reino que vocês juraram defender! – Berrou o tio de Sara – Como ousam invadir o MEU castelo? Os meus cavaleiros irão arrancar as cabeças de todos vocês e então eu as mandarei de volta ao seu maldito lorde traidor! – Jullius conseguiu sentar-se e apoiou suas costas no trono.
- Não existe mais Lorde em Roventus – disse o cavaleiro dourado – existe apenas um rei, o rei de Maros!
A voz de Jullius soou como um lamento. Como uma alma em desespero, agonizante.
- Não! JAMAIS! Aquele maldito não tem sangue real. A mãe dele deve ser uma puta qualquer que fodeu metade do reino em troca de uma migalha de pão, ele jamais sentará neste trono. Não pode, não pode... – Sara finalmente percebeu que estava tudo perdido. Seu tio e ela iriam morrer. E ela podia sentir o medo em si assim como sentia o medo na voz de seu tio, já não o odiava mais, não queria morrer com ódio em seu coração.
“Morrerei sem conhecer o amor e sem poder cantar uma bela canção” Sara estava abalada. Ela envolveu o tio pelas costas com os braços e repousou a face em seu pescoço. Ela queria dizer, queria pedir piedade, ela precisava viver, para abraçar seu pai novamente, mas era impossível.
- Perderá sua cabeça por isso, Lorde Tarth. Julgarei suas palavras como traição contra o novo rei de Maros – O cavaleiro dourado limpou a espada e começou a caminhar em direção ao trono. Em direção a Jullius.
A voz real soluçava.
- Como ousam? – As lágrimas escorriam pelo rosto da voz real – Como os deuses ousam permitir que um sangue impuro acabe com o sangue do rei, com o sangue real?!
 Jullius agarrou os cabelos de Sara e a jogou para longe.
- Solte-me, sua putinha! Viu o que você fez? Fez com que seu pai deixasse o reino e agora estamos todos perdidos.
As chamas faziam com que a armadura do cavaleiro parecesse mágica, brilhante. A armadura brilhava mais e mais a medida que ele aproximava-se cada vez mais do trono.
- Vou perder minha cabeça, eu vou morrer e não sinto nada além de ódio, SUA PUTA! – berrou Jullius.
-  Quando eu morrer, eu espero que eles te estuprem. Eu espero que arrancem cada membro de seu corpo e que você sofra, eu espero que você sofra muito. – Os olhos de Jullius fitavam os olhos da princesa, em chamas. -  O seu honrado pai atendeu ao chamado do Norte e abandou sua cidade. LEVOU METADE DOS NOSSOS CAVALEIROS E ABANDONOU VOCÊ AQUI! – Jullius batia a própria cabeça contra o trono – Eu amaldiçoou você, Sara, eu espero que o meu irmão, aquele velho desgraçado aca – A espada do cavaleiro dourado atravessou a garganta de Jullius. Estava tudo acabado e Sara agora chorava.
“Eu não tenho culpa, tio! Eu só queria que ele voltasse a sentar-se no trono e que voltasse a tomar conta de tudo!” Alguns minutos antes, Sara havia perdoado seu tio, agora, depois de tudo que ele havia lhe dito, ela sentia uma mistura de raiva e prazer ao vê-lo agonizando no chão, com sangue espirrando de sua garganta.
O cavaleiro levantou a mão direita e falou em voz alta.
- Vamos deixar o reizinho falando com o próprio sangue, depois eu corto a cabeça dele! – Os outros cavaleiros caíram na gargalhada e o cavaleiro dourado pareceu orgulhoso pelo comentário. Após chutar o rosto de Jullius, o cavaleiro pousou seus olhos em Sara.
- Vejam o que temos aqui, companheiros! – Berrou o soldado, que não tirava os olhos de Sara – Cabelos escuros como a noite uma pele pálida como leite!
- Não tão branca e pálida quanto o leite que ele vou enfiar nela! – Berrou um cavaleiro e todos caíram na gargalhada.
Sara não conseguia reagir, pensava em fugir, mas seu corpo estava imóvel. “Fuja” o cavaleiro aproximava-se. “Levante-se!” o cavaleiro preparava-se para ergue-la.
Com um estrondo, as portas da sala do trono foram abertas e vinte cavaleiros de seu pai, o verdadeiro rei, invadiram a sala. O som do combate invadiu o mundo, ignorando a princesa, o cavaleiro dourado disparou com a espada ao alto para ajudar seus companheiros e então, só então, Sara correu.
“A passagem secreta, preciso da passagem secreta” Era tudo em que Sara conseguia pensar, a dama corria pela longa escadaria de pedra, enquanto corria, derrubava algumas tochas que estavam presas na parede ao chão, era uma tentativa inútil de atrasar alguém que a estivesse perseguindo. Chegando ao grande quarto do rei, Sara procurou desesperadamente pelo quadro da espada, até que o encontrou. O longo quadro ocupava boa parte da parede e tocava o chão , exibindo a imagem de um ser erguendo uma espada negra. O quadro fez com que a princesa lembra-se da espada que o armeiro havia encontrado. A mesma espada que foi um dos principais motivos para que Illar quase fosse executado.
Sara puxou o quadro com força. Parte do quadro abriu-se, parte do quadro escondia uma porta que escondia uma longa e profunda escadaria circular. Sem perder muito tempo, a princesa agarrou uma tocha acessa e desceu a escadaria.
Ao fim da longa descida circular, Sara encontrou um extenso corredor escuro e estranhamente úmido. A princesa podia sentir que molhava seus pés.

“Onde estou?” Ela nunca havia visitado nenhuma das passagens secretas do castelo, apenas sabia de sua existência desde criança.
“Em caso de espadas ou, quem sabe, dragões, use as passagens e siga para Roventus, minha querida!” Isso era o que o seu pai sempre lhe dizia, mas agora, para onde ela seguiria? Quem estava atacando sua cidade era quem deveria estar seguindo e lutando em nome de seu pai! Nada fazia sentido. Sara estava com medo e, por mais que tentasse, não conseguia fazer com que as lágrimas deixassem de escorrer em seu rosto. A princesa já conseguia enxergar a luz do luar, no fim do corredor, sentiu feliz, mas acompanhada a felicidade veio o horror. Gritos, lamentos e uivos de desespero ecoavam por todos os lados, seguidos do som estridente de espadas e cavaleiros berrando.
Sara chegou até um pequeno portão de aço que só podia ser aberto do lado de dentro, água escorrida em seus pés e caiam direto em um pequeno rio, agora a princesa finalmente havia se dado conta de onde estava, mas preferiu não pensar muito sobre isso.
Seu longo vestido verde estava totalmente manchado de marrom nas partes mais baixas e isso apenas aumentava sua dor, pois o vestido pertencia a sua falecida mãe. Ela sempre usava o mesmo vestido no dia em que estão, no dia do aniversário de sua mãe.
Após abrir o portão, com cautela, Sara sentiu muito frio e acabou se vendo sem opções. A princesa poderia pular no rio e nadar em segurança até uma ponte que conseguia enxergar mais adiante. Esse seria o plano mais seguro, caso ela soubesse nadar, aliado a tudo isso, o frio de gelar os ossos também fez com que ela descartasse completamente a ideia de pular no rio. Ao seu lado direito, Sara podia ver uma longa escadaria que daria logo ao lado direito externo do castelo. De onde estava podia enxergar fumaça e chamas ardendo em direção a cidade e os uivos de dor apenas aumentavam. As pessoas estavam sendo massacradas. Ela não tinha escolha, precisava subir a escadaria e correr para longe, não sabia para onde, apenas para longe.
Sara disparou em direção a escadaria, mas algo a impediu, algo agarrou seu cabelo. Com um giro, Sara deu de cara com o cavaleiro dourado, o mesmo que havia assassinado seu tio.
- Onde você pensa que vai, bela donzela? – O cavaleiro deu uma piscadela para Sara, e agora puxava seus longos cabelos para o alto. Sara agonizava.
- Você é a princesa Tarth, aquela que não tem voz, certo? – Sara assentiu, desesperada. O cavaleiro continuou.
- Sabe que acho isso ótimo? Assim você não poderá implorar por socorro ou ficar berrando quando estiver agonizando - Sara queria implorar.
“Por favor, não me machuque! Meu pai é o rei, ele vai lhe pagar muito!” Era tudo o que ela queria dizer, não importava-se se isso acabasse parecendo com que ela fosse uma garotinha assustada, ela só não queria que a machucassem. A princesa soluçava de medo.
- Que belo vestido, gosto do cheiro que vem dele. – O cavaleiro a soltou, desembainhou a espada e apontou para o pescoço da dama.
- Venha comigo, princesa. Você será o prêmio da noite, não, seu pai não irá lhe resgatar, há essa hora, ele já deve ter perdido a cabeça. Você não tem valor nenhum, ninguém vai pagar nada para resgata-la.
Seria isso verdade? Seria verdade que seu pai, o rei, havia sido assassinado? O mundo começou a girar, Sara mal conseguia manter-se de pé.
Encarando a princesa, o cavaleiro seguiu falando.
- Os meus leais companheiros querem comemorar, bom. – O cavaleiro deus os ombros – Que a comemoração seja foder você!
Sara tentou correr, mas foi novamente agarrada pelo cabelo.
- Por que você não fode com a minha espada na sua bunda? – A voz veio do alto da escadaria, um jovem esguio e loiro descia calmamente. Mancando e sorrindo. O cavaleiro puxou Sara para trás de si e apontou a espada para o jovem loiro.
- Vai perder a cabeça por isso! Quem sabe depois eu não enfie a minha espada na sua bunda seu filho da puta! – Berrou o soldado, bufando de raiva.
- Era você quem queria forçar a dama as suas vontades nojentas. Quem pensa em fazer isso com uma bela dama não tem amor pela beleza de uma mulher, apenas oculta a sua verdadeira vontade... – Jovem coçou a cabeça – “Enfiar espadas na própria bunda.”
A pálida pele do cavaleiro dourado tornou-se vermelha como o sangue.
- Escute aqui, pirralho! Eu vou arrancar as suas tripas e fazer com que você as engula só para que eu posso arrancá-las novamente!
O jovem esguio desembainhou uma espada com a lâmina totalmente negra.
- Vai com calma, engolidor de espadas, vai com calma! – Disse o jovem, com um tom irônico na voz.
“É a espada que foi roubada” pensou Sara, mas quem a empunhava não parecia ser um ladrão “É tão jovem”.
O cavaleiro dourado saltou com a espada erguida em direção ao jovem. O Ladrão balançou a espada para a esquerda e, apenas o vindo da lâmina da espada negra partiu o cavaleiro dourado ao meio. Sara colocou as mãos sobre os olhos.
O jovem ladrão sorriu e então, vomitou.
Sara correu em direção ao jovem loiro com milhares de perguntas, mas tudo que conseguiu fazer foi abraçá-lo.
- Calma princesa, eu estou recuperando o fôlego. Não é todo dia que se vê um cavaleiro partido ao meio, aproposito – O jovem olhou nos olhos da princesa – Meu nome é Robin, eu não sou um príncipe e nem tenho um cavalo, mas vim resgatá-la dessa cidade em ruínas.