Capítulo 10 - A canção do marinheiro


Madame Lorth não era conhecida por possuir uma grande beleza, talvez pelo contrário. Ela era uma das mulheres mais ricas de todo o reino de Maros e adorava desfilar pelas ruelas do berço do ouro acompanhada de dois cavaleiros, para sua segurança.

Todos sabiam que ela não era uma mulher muito feliz, já que seu marido, Lord Jake Lorth, havia se casado com ela apenas por interesse em sua fortuna.

Ela era estranha, magricela, seus olhos eram azuis e miúdos. Seu nariz parecia quebrado, seus cabelos eram cinzentos e ela desfilava por todo o lugar exibindo anéis de pedras preciosas em cada dedo da mão direita, assim como um belo colar de pedras da montanha de cristal no pescoço.

Robin já estava a observando a vários dias e decidiu que já era hora de agir.
Verificou os bolsos de seu gibão de couro e certificou-se que estava tudo lá. Arrumou o cabelo e seguiu em direção a madame.
Ao contrário da madame, Robin era bastante jovem, tinha a pele tão branca que ao menor contato com o sol já tornava-se rosada.
- Mas que bela manhã de sol, não acha, Madame Lorth? – Disse o jovem ao aproximar-se da magricela.
- De fato. Belíssima – Disse a madame sem dar muito atenção a Robin. Um de seus cavaleiros olhou de esgoela para Robin, mas ele não deu muita atenção.
- Se me permite a ousadia, a mesma manhã não teria tal beleza se a senhorita não estivesse desfilando pelo berço do ouro. – Tal comentário foi o suficiente. Agora Robin tinha total atenção da mulher de cabelo cinzento. A madame soltou risinhos.
- Assim você me deixa constrangida, mas agradeço o comentário gentil, senhor...?
- Robert, pode me chamar de Robert. – Disse Robin fazendo uma leve reverência que fez a madame enrubescer.
- Posso ser um pouco mais ousado? A senhorita permitiria que eu a acompanhasse em seu passeio nessa linda manhã? – A madame de Lorth deixou escapar um sorriso. – Depois de um comentário tão gentil, como poderia eu recusar? E chame-me de Morgana. – Ela agora tinha um estranho brilho nos olhos.
“Acaba de cometer um grande erro, Morgana” Robin deixou escapar um sorriso malicioso.
O “casal” passou toda a manhã caminhando lentamente pelas ruelas do berço do ouro. Robin percebeu que Morgana devia sentir-se sozinha já que não passou um minuto sem tagarelar sobre tudo. Ela estava adorando a companhia e ele, odiando.
Morgana comprava tudo que lhe era oferecido pelos vendedores desesperados do berço do ouro, Robin achou tal fato muito curioso.
- Certa vez, me ofereceram uma coleira para cachorro. Acabei comprando, mesmo não tendo um. – Disse Morgana as gargalhadas.
- Por quê você fez isso? - Perguntou Robin realmente curioso.
- Eu...eu não sei. Eu só não quero que as pessoas afastem-se de mim. Todos sabem que não sou muito feliz. Só não quero que pensem também que sou avarenta, tendo ajudar aqueles que não têm tanto quanto eu comprando o que me oferecem. Eu não espero que entenda isso, ninguém entende...
“Se não quer todo o seu dinheiro então entregue-o para mim!” foi o que Robin quis dizer, mas acabou sendo mais gentil.
- A senhorita é uma coisa rara, muito gentil, muito amável.Após muitos pedidos, Robin conseguiu convencer Morgana a ir até um jardim um pouco afastado das ruelas sem a presença de seus cavaleiros de guarda pessoal. "Enfim, sozinhos".
Robin agarrou a mão direita da madame com delicadeza, aproximou-a em seu rosto e a beijou.
- Seus mãos são delicadas, assim como você. – O comentário fez Morgana enrubescer e suspirar, mas Robin logo soltou sua mão, o jovem atirou-se de joelhos no chão.
- Perdão! Eu não queria ser tão ousado, perdão.
Morgana agarrou a mão de Robin e fez com que ele novamente ficasse de pé.
- Não tem o que perdoar, você está alegrando muito o meu dia, Robert.
“Você é minha” Tudo estava seguindo como o planejado e já era hora de agir.
- Aceite então este presente, senhorita.
Robin tirou um lindo anel roxo do bolso. Era decorado com uma estranha pedra azul.
Morgana sorriu e ergueu a mão esquerda para o jovem.
- Aceito, mas só se você coloca-lo no dedo que julgar ser o mais belo.
Robin segurou a mão esquerda de Morgana e a baixou com delicadeza.
- Anéis devem ficar na mão direita, senhorita. Sei que a senhora já tem anéis em todos os dedos de sua linda mão direita, mas permita-me que retire apenas um para que eu possa colocar no lugar este que lhe entrego de presente.
A madame pareceu um pouco confusa, mas assentiu.
Robin pegou a mão direita de Morgana, retirou um grande anel de ouro do dedo indicador e colocou o seu no lugar.
Sem que Morgana percebesse, Robin guardou o anel de ouro em seu bolso direito e agarrou outro muito semelhante em seu bolso esquerdo.
- Deixe-me devolver seu anel de ouro, senhorita. – Robin foi ousado, colocou o anel semelhante na abertura do peito do vestido de Morgana. O anel foi parar entre os seus seios. A madame enrubesceu.
- Ó Robert, eu sou uma mulher casada. – disse com um sorriso malicioso estampado no rosto.
- Sei disso e também sei que serei punido pelos deuses por lhe pedir o que lhe pedirei agora, mas eu não conseguiria dormir se não o fizesse. Permite-me beijá-la?
Morgana aproximou-se do rosto de Robin.
- Pensei que nunca iria pedir.
A madame praticamente agarrou o jovem a força. Ela estava saboreando cada minuto daquele beijo molhado. Estava apaixonada. Robin contava os minutos para que aquilo chegasse ao fim, mas precisava continuar. Ele a puxou para mais perto, beijou seu pescoço e logo em seguida voltou a beijar seus lábios. Com muita delicadeza, Robin retirou o calor de pedras da madame e o guardou em um bolso do gibão, no mesmo instante, agarrou outro semelhante e repôs no pescoço de Morgana, seguído de um beijo.
- Ó, Robert! Vamos até sua casa, ou para a minha. Meu marido está tratando de negócios com o rei. – Morgana estava com a respiração pesada.
- Eu não posso, isso seria errado, senhorita. Agora preciso partir, antes que faça algo contra a vontade dos deuses, mas voltarei a vê-la! Sonharei com este momento. Não se esqueça de mim!- Jamais! - disse Morgana, um pouco decepcionada.
Robin era um excelente ator, deixou escorrer até  mesmo uma lágrima ao despedir-se de Morgana. Após uma manhã bem sucedida, o jovem gatuno seguiu para sua taverna favorita, a dedos-leves. 
- Hoje a bebida é por minha conta!
Gritou Robin e todos na taverna ficaram eufóricos. Dançando, o jovem se dirigiu até o balcão da taverna onde sem muito esforço subiu. Com um assubiu chamou a atenção de todos, erguendo o colar de pedras da montanha na mão.
- Hoje foi uma bela manhã de trabalho, eu lhes entrego bebidas e em troca eu peço diversão!
Um balofo com tapa olhos bateu sua caneca na mesa.
- A CANÇÃO DO MARINHEIRO?
Robin sorriu.
- Seria perfeita, posso começar?

“Vestido de azul o belo Marinheiro navegou pelo céu azul,
do norte ao sul e das escuras ilhas ao cume do mundo.
Mas de seu capitão não pode esconder
que na navegação não colocava seu coração
pois seu verdadeiro ardor encontrava no vinho ao seu redor”

- Agora todos comigo!
E todos na taverna cantaram em coro.

“Marinheiro, marinheiro, marinheiro ébrio!
O reino de Maros nunca  viu homem igual
Sua garganta água nunca conhecerá!
Marinheiro, marinheiro, marinheiro ébrio!
Do sul ao norte ele pinta o mundo com o roxo do vinho!”


A taverna inteira socava as mesas e gritavam em coro a canção do marinheiro.Robin saltou do balcão para uma mesa e, dançando, continuou a canção.



“Mas pela bebida perdeu a paixão

quando seu ardor por ela finalmente começou
a bela donzela de cabelos negros ao mel lhe apresentou
agora ébrio por ela se tornará
mas pelos dois reinos sua canção continuaráMarinheiro, marinheiro, marinheiro ébrio!
O reino de Maros nunca  viu homem igual
Sua garganta água nunca conhecerá!
Marinheiro, marinheiro, marinheiro ébrio!
Do sul ao norte ele pinta o mundo com o roxo do vinho!”

Gritos e aplausos ecoaram pela taverna. Robin desceu da mesa onde estava e foi tomar ar próximo a uma janela, mas seu sossego foi interrompido pelo baque da porta.
- Justiça real!
Gritou um cavaleiro exibindo a bandeira do reino para o dono da taverna.

- Madame, pode entrar.

O cavaleiro abriu caminho para que a Madame Lorth entrasse no local.
Não foi preciso de muito, ela logo avistou Robin e apontou para ele aos gritos.
- Foi ele! Aquele maldito loiro me furtou! SEU DESGRAÇADO!
O Cavaleiro desembainhou a espada.
- Você está preso em nome da Justiça do Rei. Fique parado!
Robin não esperou muito, empurrou todos que estavam em seu caminho e subiu uma escadaria que encontrava-se ao lado do longo balcão da taverna. O Jovem adentrou em um quarto e de lá saltou por uma janela. 
“É por isso que sou conhecido como o gato do berço!” Pensou Robin já no chão. Já estava de saída quando decidiu dar uma olhadela para trás. Ficou pasmo. Em frente a taverna,  nove cavaleiros olhavam para ele com desconfiança.
- Ei, você! quem lhe deu permissão para saltar dessa janela?

Robin não segurou a língua.

- Sua mãe!
E antes mesmo que a Madame Lorth lhes dessem algum motivo, os cavaleiros já perseguiam Robin pelas ruelas do berço do ouro.