- Pai você precisa me
levar até as montanhas! – Insistiu Elizabeth.
- Minha pequena fagulha... – Elizabeth odiava quando seu pai a chamava assim. O
motivo, é claro, era a cor do seu cabelo. Vermelho como o fogo. Vermelho com
o sangue.
- As montanhas flormel são perigosas, talvez ainda existam alguns Chomts
vivendo lá! – Elizabeth cruzou os braços e fez a cara mais séria que conseguiu.
- Nunca se sabe! Pode ser que ainda tenham alguns sim! – Retrucou Edson, colocando
longos casacos de pele de urso em uma espécie de bolsa.
Aquele tinha sido um péssimo dia para Edson e Elizabeth sabia disso. Sua
armaria fora invadida e roubada. A espada que fora roubada era extremamente rara e,
segundo fatos que Elizabeth achava duvidosos, propriedade do rei.
Já era noite e Sir Illar já deveria estar longe, o melhor amigo de Edson fora
para o círculo da paz, ao lado do rei de Maros.
George correu em direção ao pai e agarrou sua perna direita.
- Pai, não vai! Quem vai mim ajuda? Eu posso usar isso. – George exibiu uma
pequena faca afiada.
Elizabeth revirou os olhos e, com um tapa, tirou a faca das mãos do irmão. A
faca foi parar no chão, ao lado do tapete.
- O certo seria: Quem vai ME AJUDAR? Aprenda a falar direito antes de sair por
aí com uma faca! – E bagunçou a cabeleira loira de seu irmão, que em surto de
raiva, mostrou a língua para Elizabeth.
- Pai, você vai precisar de alguém para conversar. Alguém pra lhe a ajudar a
carregar todas essas coisas. Deixe-me ir com você! – Elizabeth agora implorava.
Seria perfeito, explorar as montanhas em busca de antigos tesouros e, quem
sabe, Chomts. As montanhas flormel eram famosas por abrigarem enormes ursos,
assim como as famosas flores flormel, que ao fim do dia, deixavam o mundo com cheiro
de mel. Lá ninguém a impediria de treinar com a espada.
“Serei apenas eu, meu pai, a espada e o silêncio” Elizabeth quase conseguia
sentir o vento soprando em seu rosto.
- Não. E não se fala mais nisso!
As esperanças estavam perdidas. Elizabeth jamais exploraria as montanhas.
- Você não tem que observar a lua, Eliza? Para um estudo? As montanhas seriam
perfeitas para isso! – Disse a velha ursa, dando uma piscadela para Elizabeth.
Edson bufou.
- Tudo bem, tudo bem! Eu levo a fagulha, mas saiba que existem monstros no
escuro e você não terá sua cama macia nas montanhas. E lá será muito frio, de gelar até os ossos!
“Que venham os monstros!” Elizabeth saltava de alegria. Sua aventura finalmente
estava prestes a começar e então...ela ouviu um berro.
Seriam gritos? Elizabeth não tinha certeza, mas algo acontecia.
- Vocês ouviram isso?
Edson coçou a careca.
- Eu acho que ouvi. – A ursa rebateu - Deve ser alguma baderna no berço do
ouro, geralmente conseguimos ouvir daqui!
Elizabeth deu os ombros e preparava a montar mentalmente sua bagagem.
“Livros, pergaminhos, tinta e uma espada de madeira” Elizabeth foi até seu quarto,
agarrou vários livros e de volta a sala principal de sua casa, começou a
folhear, em busca de algo que ainda não tivesse lido.
A jovem agora lia sobre um grande lorde que, por amor, perdeu a cabeça. O
cavaleiro conhecido como “Sir raposa” era o capitão da guarda de lorde
Strongwind, da cidade de Monsguil.
Sir Raposo apaixonou-se por uma jovem donzela de cabelos cacheados. Passaram se
meses e em uma noite, Sir Raposo levou a dama para seus aposentos na fortaleza
de lorde Strongwind. Após o amor, a jovem cortou a garganta de Sir Raposo e,
escondendo-se nas sombras, ateou fogo em toda a fortaleza, matando milhares de
soldados e também lorde Strongwind. A jovem fez com que Monsg-
- SOCORRO! MAMÃE!
“O que está acontecendo?” Dessa vez
todos ouviram alto e claro. Era a voz de uma criança em desespero. O som de
chamas invadia agora os ouvidos de toda a família Karth, acompanhado dos
guinchos de horror de inúmeras pessoas.
- Eu ouço espadas – Comentou o armeiro.
Edson agarrou uma longa espada encontrava-se presa na parede.
O armeiro agora tentava espiar o que estava acontecendo pelas frestas de uma pequena janela.
Ele não conseguia enxergar nada.
- Elizabeth, George e mulher, para trás! Vou abrir a porta e ver o que está
acontecendo.
O coração de Elizabeth palpitava a toda velocidade, seu irmão agarrou-se em
suas costas, tremendo. Todos estavam quase paralisados, pois milhares de gritos
desesperados ecoavam do lado de fora.
O armeiro apoiou-se na porta, colocou a mão na maçaneta e, com um estrondo, foi
jogado para trás e caiu no chão.
Um cavaleiro loiro acompanhado de um cavaleiro usando um capacete com chifres adentraram a casa dos Karth, arrombado a porta.
- O SÍMBOLO, SÃO KARTHS! ACABE COM O VELHO!
Edson levantou-se e ergueu a espada. Os dois cavaleiros desembainharam suas
longas espadas e jogaram-se contra o armeiro.
Edson esquivou-se e empurrou um deles, o que usava capacete, que tombou no chão
como uma enorme árvore. Com um giro, Edson agarrou a capa do outro e o jogou
contra a parede.
Antes que pudesse defender-se, o
cavaleiro atirado ao chão ergue-se e enfiou sua lâmina nas costas de Edson.
- PAI!
Berrou Elizabeth e seu pequeno irmão em coro. George atirou-se contra os
cavaleiros.
- GEORGE VOLTE AQUI AGORA MESMO! – Berrou a velha ursa e disparou em direção ao
filho.
O pequeno Karth chutava o cavaleiro de capacete, que tinha uma longa
lâmina cravada em Edson.
O cavaleiro loiro agarrou George pelos cabelos e, com um movimento leve, passou
a lâmina pela garganta da criança. O cavaleiro jogou o menino ao chão.
-NÃO!
Elizabeth correu em desespero até seu irmão, que lutava para respirar, mas a
cada tentativa desesperada para puxar o ar, George acabava afogando-se ainda mais no próprio sangue.
A mesma espada atravessou o coração da velha ursa, que caiu ao chão fitando
Elizabeth.
Edson encontrava-se no chão, agonizando, tentando alcançar a própria espada.
- Elizabeth...corra...filh... – Edson tentava falar.
Elizabeth perderá seu irmão e sua mãe. E foi rápido assim, em um piscar de
olhos. Seu mundo agora desmoronava.
O cavaleiro com chifres apoiou uma perna sob as costas de Edson e deslocou todo
o seu peso nela.
- Veja só que belo tapete de Karth! – Ele abriu um sorriso cheio de dentes.
Os dois gargalhavam enquanto Edson agonizava.
- Pai! Soltem o meu pai, agora! – Elizabeth socava as costas do cavaleiro com
capacete, mas ele lançou um soco em seu rosto. A dama Karth foi parar de
joelhos no chão.
Edson lutava para falar.
- Sai...Elizabeth, corr...
Elizabeth ergue-se e tentou correr em direção ao pai, mas alguém a puxou pelo longo cabelo.
- Olha só! – O cavaleiro loiro cheirou o cabelo de Elizabeth – Mas que belo
cheiro. Que bela cor!
O cavaleiro agarrou o rosto de Elizabeth, forçando-a a olhar direto em seus
olhos castanhos.
- Você é muito linda, sabia? Eu adoraria foder você!
Elizabeth foi jogada ao chão com toda a força.
- Tybon, deixe o resto para mim. Terminarei o serviço. – O cavaleiro loiro
tinha um estranho sorriso no rosto e fitava Elizabeth. O tempo todo.
O cavaleiro de capacete guardou a espada.
- Você sabe que isso não é permitido, não estamos aqui para isso!
O cavaleiro de olhos castanhos gargalhou.
- Fora daqui! AGORA!
Relutante, o outro cavaleiro deixou a casa dos Karth.
Novamente, Elizbeth tentou correr em direção a seu pai, mas foi agarrada e
jogada ao chão. Dessa vez, o cavaleiro apoiou o pé direito sob o estomago de
Elizabeth, deixando-a imobilizada.
A jovem via o cavaleiro de baixo para cima. Ao olhar para o lado, pode ver que
seu pai observava tudo. Edson chorava e lutava para chegar perto da filha.
Rastejando.
- Hoje, vou lhe mostrar para o que as mulheres foram feitas! - O cavaleiro jogava partes de sua armadura
para longe e retirava seu cinto.
A jovem avistou a faca que deixará cair mais cedo. Estava logo ao seu lado. O
cavaleiro estava ocupado, retirando o restante de sua armadura. Elizabeth
agarrou a faca. Antes que pudesse fazer qualquer movimento, a perna direita do
soldado esmagou a mão de Elizabeth. A faca foi forçada contra a palma da mão, que começou a sangrar. A jovem gritou, agonizando.
- Você acha que vai se salvar? Acha que pode fazer alguma coisa pra fugir do
que vai lhe acontecer agora, putinha? Você não pode se esconder – Ele exibiu um sorriso cheio de dentes.
- Mas se você é assim, tão selvagem, posso usar essa faca em você!
O homem lambeu o lábio superior.
- Tão doce, tão jovem.
- Tão doce, tão jovem.
Elizabeth soluçava, era o fim.
O homem jogou-se sobre o corpo de Elizabeth, agarrou suas coxas e forçou a
jovem a abrir as pernas com o joelho.
- Fique calma, você vai gostar disso tanto quanto eu. Seu pai também aprova,
ele não tira os olhos de nós! – O cavaleiro começou a beijar o corpo da jovem. Com a faca, o cavaleiro começou a rasgar o vestido verde de Elizabeth. Ele acariciava seus seios.
Elizabeth fechou os olhos. Tentou pensar nas montanhas, tentou pensar em sua família,
lembrou de Illar. “Me ajude, Sir Illar!”
Ouviu o som de uma lâmina.
Quando abriu os olhos, viu que a espada de seu pai havia atravessado o pescoço
do soldado de ponta a ponta, seu sangue jorrava em Elizabeth.
Edson encontrava-se de joelhos, segurando o cabo da espada. A esperança durou
apenas alguns segundos, logo Edson tombou.
Elizabeth correu e virou o rosto do pai, ela o beijava e o chamava
desesperadamente. Edson lutava para respirar. O armeiro sorriu ao ver o rosto
de Elizabeth.
- Minha fagulha...sempre tão destemida. – Os olhos de Edson enchiam-se de
lágrimas – Saiba que eu te amo minha filha, eu te amo muito! Perdão, não conseguiu
proteger vocês.
As lagrimas de Elizabeth escorriam e molhavam o rosto de seu pai.
- Pai, você ficará bem! Eu vou te ajudar, eu vou buscar ajuda! Só não deixe
sozinha aqui, por favor! – Elizabeth abraçou o pai com muita força.
Edson continuou.
- Perdão, perdão...encontre Illar, ele vai lhe ajudar. Você... – Edson lutava
para falar – Saiba que eu te amo...você é uma Karth, vai conseguir sem mim.
Precisa conseguir.. – Os olhos de Edson já não fitavam nada. Seus olhos
estavam em silêncio.
- Não me deixe aqui, pai! – Elizabeth socava o corpo de Edson – Por favor! Eu
te amo muito pai, não me deixa aqui! Por favor, não me deixa!
Edson estava imóvel.
- Pai? acorde, pai! Por favor! Não me abandone!
Edson estava imóvel.
- Pai? acorde, pai! Por favor! Não me abandone!
Mas era tarde de mais, Elizabeth estava sozinha.
A mão esquerda da jovem pingava sangue. Ao levantar-se, Elizabeth viu o medo.
Estava em todos os lugares e principalmente, em sua alma.
Nunca mais iria ouvir a longa gargalhada de seu pai. Nunca mais iria bagunçar o
cabelo do irmão. Nunca mais iria abraçar sua mãe, sua velha ursa.
“Encontre Illar, ele vai lhe ajudar...você é uma Karth...”. Elizabeth soluçava.
“Coragem, você é uma Karth”.
Ela retirou a espada do pescoço do cavaleiro e correu para fora de casa, com os
olhos fechados, não queria ver os corpos daqueles que mais amava. Não suportaria ver tudo outra vez. Nunca
mais.
Elizabeth agora fitava o caos. Podia enxergar o castelo do rei em chamas a
distância. Toda a sua vila encontrava-se em ruínas e muitos soldados saqueavam
e matavam todos que tentavam resistir. Crianças berravam. Mulheres eram
violadas, ali mesmo, no mundo gelado, pintado de branco.
Elizabeth correu em direção a escuridão, correu em direção as ruelas e então,
parou. “Eu te amo” Elizabeth caiu de joelhos. “Minha fagulha...tão destemida”
Elizabeth colocou as mãos sob os ouvidos. “Perdão” Elizabeth gritou. Exigindo o
silêncio. Exigindo sua família de volta. E a neve caia.