Capítulo 13 - A reunião Karth

Illar quase havia perdido a sua vida, tinha presenciado o retorno do rei de Maros assim como chegou ao seu conhecimento sue inevitável fim.
Uma pequena comemoração marcava a sua última noite no Berço das estrelas, um jantar especial em nome do pequeno George, filho de Edson Karth. George comemorava seu sexto ano de vida.
O caminho até a casa de Edson era íngreme e Illar começava a sentir dores em sua perna esquerda.
“Estou velho” Há não muito tempo atrás, o cavaleiro solitário correria pelo caminho íngreme durante horas sem cansar.
Illar avistou uma figura enorme de colete marrom, carregando um corpo de javali no ombro esquerdo. Não demorou muito até reconhece-lo.
O cavaleiro correu até Edson e lhe deu um leve pontapé nas pernas.
- MAS QUEM FOI O FILHO DA.. – Edson virou-se e deu de cara com Illar caindo na gargalhada.
- Mas você enlouqueceu? Pensa que tem dez anos? Bah! – Edson resmungou durante algum tempo, mas logo se acalmou e então os dois amigos seguiram caminho.
- Edson, se não me falha a memória, sua filha não gosta muito de carne de Javali.
Edson sorriu e ergueu um grande peixe dourado que carregava na mão esquerda.
- É por isso que também estou levando esse cara feio aqui.
O cavaleiro contou tudo o que havia acontecido ao armeiro, omitindo apenas a parte em que os dias do rei estavam contados e que uma guerra era quase inevitável.
- Então, vou ter que entregar ao rei uma espada que não me pertence?
Illar baixou a cabeça.
- Infelizmente. Acredite, eu fiz tudo o que pude.
O armeiro abriu um largo sorriso e deu um tapa nas costas do cavaleiro solitário.
- Háhá! Deixa pra lá, só deixe-me entrega-la a você amanhã. Eu a deixei na armaria. Illar concluiu que não haveriam problemas se a espada fosse levada até o castelo na manhã do dia seguinte.
Estranhamente, desde o momento em que avistaram a casa, Edson controlava-se para não cair na gargalhada, Illar conhecia o armeiro a bastante tempo para saber que tinha alguma coisa errada.
- Edson – Illar fez sinal para que o armeiro para-se. A casa estava a menos de trinta passos de distância – Qual o motivo de conter o riso?
Edson estava totalmente vermelho.
- Que riso?
Não aguentou, o grande armeiro caiu na gargalhada, mal conseguia manter-se em pé.
- O quê foi que você fez? – Illar não sorria.
- Eu não fiz nada! Só temos um convidado especial para o jantar de hoje.
Convidado especial? Bom, isso não poderia ser tão mal. Illar concluiu que Edson poderia estar bêbado. Deu os ombros e seguiu caminho.
Edson não bateu, apenas abriu a porta de sua casa e adentrou. O armeiro fez sinal para que Edson entrasse.
“Mas que grande filho da puta!” Agora tudo fazia sentido. Ao lado da lareira, sentada em uma cadeira detalhada em madeira, estava ela, Lisa, a paixão de Illar.
O cavaleiro se deu conta de que jamais deveria ter contado nada a Edson. Illar fez sinal para que Edson o acompanhasse até o lado de fora.
- Edson, seu miserável! O que ela está fazendo aqui?! – Illar fervia de raiva.
- Vamos lá, Illar! Eu estou lhe fazendo um favor e eu juro que não tive a intenção! A mulher conheceu ela a pouco tempo... – Illar retrucou – E eu aposto que você se esforçou muito em evitar que ela fosse convidada, não foi?
Edson enrubesceu.
- Na verdade fui eu quem a convidei, mas vamos lá! Ela não vai lhe arrancar nenhum pedaço!
“Não, mas eu vou lhe arrancar a cabeça seu gordo maldito!” O cavaleiro solitário estava furioso, e concluiu que deveria ir embora, mas logo surgiu Elizabeth e insistiu para que os dois entrassem logo, afinal, a noite já havia chegado acompanhada de uma grande nevasca.
- Deixe-me apresenta-la a você, Illar, essa bonita dama é a Lisa. - Disse a velha ursa, sorrindo.
Lisa sorriu e levantou-se.
- Creio que nós já tenhamos sido apresentados, eu conheço Illar a algum tempo. Ele já comprou algumas flores em minha loja, mas confesso que nunca tinha lhe visto sem a armadura.
Como um cavaleiro real, Illar passava a maior parte do tempo usando armadura e capa, mas no encontro de hoje, o cavaleiro usava um simples gibão marrom com detalhes azuis.
Illar deu os ombros.
- Confesso que também nunca vi mais bela dama. Também confesso que nunca vi o velho Edson sem esse maldito colete marrom.
- E eu confesso que não sabia que você gostava de flores – indagou Edson. Illar encarou o armeiro com sua melhor expressão de demônio.
- Mulher! – berrou Edson - Temos um banquete para preparar! – Edson jogou o enorme javali na grande mesa de madeira. Tentando ser engraçado, o armeiro colocou o peixe dentro da boca do corpo de javali, a brincadeira não durou muito, Elizabeth achou tudo muito nojento.
- E onde está o pequeno George? – Illar ainda não havia avistado o pequeno filho de Edson.
- Estou aqui, bem atrás de você! Há-há, eu conseguiu surpreender um cavaleiro de verdade!
E de fato conseguiu, Illar não percebeu quando o pequeno garotinho esgueirou-se por trás de todos até dar de cara com as costas do cavaleiro solitário.
Illar agachou-se para ficar cara a cara com o pequeno George.
- Eu soube que você sonha em ser um grande cavaleiro.
George uma estranha careta.
- Na verdade eu quero ser rei!
“Eu teria de mata-lo antes disso” Illar entendia que era um sonho de criança, mas nunca passaria disso. O trono era ligado a família Tarth e jamais poderia ser tomado.
Illar expressou seu melhor sorriso e entregou um pacote vermelho ao garoto.
- Hoje é seu dia. E todos gostamos de presentes, espero que goste deste.
Entusiasmado, George rasgou o pacote. Os olhos do garoto brilharam ao dar de cara com o conteúdo do pacote.
- Essa é uma capa usada pelo verdadeiro rei de Maros. Ele a entregou a mim a muito tempo, como um sinal da mais alta honra real. Espero que faça bom uso dela.
Imediatamente, George amarrou a capa verde no pescoço, agarrou uma espada de madeira e saiu proclamando que era um rei de verdade com a capa arrastando pelo chão. Tropeçando nela, algumas vezes.
Illar fez sinal para que Edson o acompanhasse até o lado de fora novamente e então,
Illar concluiu que não havia problemas e os dois amigos seguiram novamente para a dentro da casa.
Um longo tempo passou. Enquanto a grande ursa preparava o jantar, Illar, Lisa e Elizabeth divertiam-se contando histórias. Lisa exibia longos sorrisos para Illar, o deixando sem jeito. O cavaleiro era bom com a espada, mas péssimo quando o assunto era romance. Em determinado momento, Elizabeth tentou iniciar uma conversa sobre iniciar um treinamento de combate com a espada, mas logo foi interrompida por um berro da grande ursa anunciando o jantar.
A tradição dizia que o aniversariante deveria entregar o primeiro pedaço do javali a quem bem entendesse, no caso de George, foi ele mesmo. Nada mais justo.
Ironicamente, Illar teve de sentar-se ao lado de Lisa na mesa. O cavaleiro evitava olha-la diretamente nos olhos, sem sucesso.
A dama estava radiante, tinha longos cabelos louros e sua pele era tão pálida que lembrava neve. Seus lábios pareciam pintados, pois tinham uma curva perfeita e seus olhos eram do verde mais profundo.
- E então Illar, como vão os amores?
Edson deu uma piscadela para Illar, que naquele momento, desejou decapitar o armeiro.
- Meu compromisso é com o reino, você sabe disso.
Lisa não concordou.
- Ninguem deve privar-se do amor, nem o mais nobre dos guerreiros. Dizem que o amor pode deixar um cavaleiro imbatível!
- É verdade, ela tem razão! – Disse Edson com a boca cheia de Javali. Elizabeth usava a palma da mão como escudo, protegendo-se dos restos de comida que voavam da boca do armeiro.
- Pai, por favor!
- O quê foi? – retrucou Edson e todos caíram na gargalhada.
Nem Edson e nem George entenderam o motivo.
- Pai, o quê é um Chomt? – perguntou o pequeno aniversariante.
Edson ficou de pé, colocou a língua pra fora e fez uma careta.
- Imagine uma lagartixa com o meu tamanho e este rosto. Agora adicione garras enormes e um punhado de dentes afiados.
George pareceu não compreender.
- Pai, você é um Chomt?
Elizabeth resmungou alguma coisa enquanto Edson gargalhava.
- Que tipo de flores você comprava no estabelecimento de Lisa? – Perguntou Elizabeth a Edson. A jovem parecia confusa.
- Eu acho que ele não estava muito interessado nas flores. Rá!
Illar chutou Edson por baixo da mesa.
- Que foi?! – Perguntou o grande armeiro, que soluçava de tanto rir.
Illar começou a explicar.
- Eram flores Glu, Elizabeth. São azuis e se você cheirá-las durante alguns segundos, passará o resto do dia com um aroma agradável no nariz. Eram geralmente usadas por – Lisa continuou – soldados, no cambo de batalha. Para afastar o mal cheiro dos corpos.
Illar ficou sem palavras, estava impressionado.
- Vejo que sabe algumas coisas sobre a guerra, Lisa.
A linda moça sorriu.
- Eu acho que poderia até vence-lo em um combate.
Illar franziu o cenho.
- É brincadeira! Estou brincando com você.
Os dois sorriram e Illar enrubesceu.
O jantar seguiu durante várias horas, a medida em que o tempo passava, Illar gostava mais e mais de Lisa e já não estava tão irritado pelo fato de Edson convidá-la para o jantar, pelo contrario, sentia-se muito feliz por isso.
- Amanhã, partirei até as montanhas Flormel. Vou explorer cavernas e destruir pedras, em busca do material que foi usado na construção da espada que me foi roubada! – Anunciou Edson, em determinado momento.
Elizabeth franziu o cenho.
- Roubada?
Edson deu os ombros e disse que explicaria tudo mais tarde. Pouco antes do fim, Elizabeth perguntou se alguém gostaria de ouvir uma história sobre a lua e todos responderam um “Não!” em coro, deixando a jovem um pouco chateada e fazendo com que todos caíssem na gargalhada. Illar sentia-se mal por já ter respondido que não tinha família, já que para ele, ali estava toda a família de que precisava.
George já dormia em um tapete no chão O garoto estava rodeado de miniaturas de soldados de madeira e Illar despedia-se da família Karth. Pouco antes de sair, Illar perguntou a Lisa se poderia acompanha-la até sua casa. Lisa assentiu.
- Eles formam uma bela família, os Karth. – Comentou lisa. Seus cabelos balançavam de um lado para o outro, com o brilho da lua refletido em alguns fios.
- Eu os conheço a bastante tempo. Os Karth sempre foram muito leais ao rei.  – disse Illar.
A casa de Lisa ficava na parte mais alta e íngreme do Berço da vida, seria uma longa caminhada até lá, o cavaleiro solitário não poderia deixar o silêncio surgir.
- Eu espero não estar enganado, mas notei um leve interesse seu em histórias de combate.
Lisa sorriu.
- Meu pai sempre me contava grandes feitos de exércitos de cavaleiros. As vezes, contava alguns de seus feitos em combate, pode-se dizer que eu gosto um pouco sim, apesar de achar horrível, mas na verdade foi você quem me impressionou.
- Por quê? – indagou Illar
- Um cavaleiro que não teme as flores. Geralmente quem sabe usar uma espada acha que terá a honra destruída se for visto com uma rosa.
Illar ficou taciturno. Lisa tentou mudar de assunto.
- Eu sempre amei as flores, sabe. Eu gostaria de saber tudo sobre as pessoas, mas não se pode saber tudo sobre elas. – Lisa agachou-se e, com delicadeza, arrancou uma flor mel de um canteiro ao lado da estrada de pedra - Mas pode-se saber tudo sobre uma flor. Você pode sentir seus sentimentos, sentir seus desejos e admirar sua beleza.
- Não entendo de flores, mas sei reconhecer a beleza das coisa e digo você é tão bela quanto a mais bela das flores – Declarou Illar. Lisa pareceu ignorar o comentário.
- O inverno, eu o odeio. Ele acaba com a cor do nosso mundo e me sinto tão só.
- Você tem família, Lisa? – O cavaleiro solitário tentou fazer com que seu elogio estupido fosse esquecido. A pergunta pareceu incomoda-la um pouco.
- Eu já fui casada com um mercador. Certa noite, ele partiu em uma viagem em busca de mercadorias. Graças a uma benção dos deuses ele foi assassinado na estrada do rei.
Illar ficou paralisado.
- Uma benção? Como uma morte pode ser uma benção?
Lisa tirou uma mecha de cabelo do rosto.
- Sim, uma benção. Eu agradeceria se você não tocasse neste assunto. – A voz de Lisa estava um pouco alterada.
- Perdão – Disse o cavaleiro solitário.
Lisa corou.
- Eu que lhe peço desculpas, fui rude, mas como eu disse, não se pode saber de tudo certo? As pessoas são o que são e ponto. A neve vem e volta, assim como sol. – Lisa começou a cochichar – A neve tem segredos, a lua tem segredos, você e eu temos segredos e... – Lisa agora fitava o chão – horrores. A vida é fria e triste, mas existem as flores e é nelas que eu confio. Sir Illar, foi uma honra, mas acho que posso seguir sozinha daqui, tenha uma boa noite! – Lisa fez uma leve reverência informal e seguiu o caminho íngreme com seus cabelos dançando ao som do vento.
Illar observou até ela sumir de vista, paralisado e lamentando, pensando ter estragado tudo.

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O cavaleiro seguia em direção ao estabelecimento de Edson. Illar estava de mau humor pela noite anterior.
Ao aproximar-se do estabelecimento, o coração de Illar paralisou. Cinco soldados da patrulha da cidade aglomeravam-se em na frente da armaria de Edson.

Para o alivio de Illar, Edson apareceu em meio aos soldados resmungando muito alto. Sua careca brilhava e sua pele estava vermelha. De raiva.
- O quê aconteceu aqui? – Illar perguntou a Edson, enquanto observava um amontoado de telhas de barro espalhadas no interior da loja.
- Algum ladrão desgraçado invadiu a minha loja! – Edson estava prestes a enforcar todos em sua volta.
“Parece que o urso Karth despertou!” pensou Illar.
- Edson, eu sinto muito por isso, mas eu devo partir em algumas horas e preciso da espada.
Edson socou a parede.
- Esse é o problema, a espada negra foi a única coisa roubada!

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Nas ruelas mais escuras e baixas do Berço das Estrelas, Robin mancava por alguns ferimentos no calcanhar, mas sentia-se triunfante, afinal, além de joias, ele havia conseguido uma estranha espada de lâmina escura. Ele sorria, segurando o silêncio.