Sir Illar percorria um longo corredor até o salão do trono, onde fora convocado pela voz real com certa urgência, mas seus pensamentos estavam além, pois na noite daquele mesmo dia, Sir Illar tinha um compromisso com seu amigo armeiro, afinal, seria um dia de celebrações para o clã Karth, seria o nono ano de vida do pequeno filho de Edson.
“Um pouco de comemoração me fará bem” O cavaleiro solitário estava fraco e lento, seus dias de glória já estavam distantes, faziam dias que Illar não tinha o devido tempo de sono, só conseguia pensar em quão eminente era a guerra com o norte e a convocação de Jullius ao salão do trono não deveria trazer boas notícias.
Sir Illar adentrou na sala do trono, que como sempre, encontrava-se demasiada escura, com alguns raios de luz solar invadindo o local por vidraças, do alto das detalhadas paredes azuis.
A luz delineava a imagem do “rei” Jullius, apoiando-se de perfil no trono, com os pés apoiados ao lado do trono. A voz real sorria e dedilhava uma canção em uma pequena lira.
“Uma péssima canção vinda de uma péssima pessoa” concluiu Illar.
Algo estava errado, os cavaleiros que cercavam Jullius não eram da guarda treinada por Illar, o cavaleiro não conseguiu reconhecer nenhum dos rostos.
Todos usavam armaduras negras e carregavam duas espadas consigo, na cintura e outra amarrada a capa azul, nas costas.
- Aqui estou, senhor voz do rei, em que posso ajudá-lo? – Illar fez uma leve reverência, um tanto sarcástica.
- Sir Illar, que enorme prazer! Chegou aos meus ouvidos que o sir gosta de zombar de sábios...
Jullius se colocou de pé e, enquanto falava, marchava de um lado para o outro dedilhando notas sem sentido em sua lira, o rei continuou.
- Por que você negou a espada lendária ao mestre da sabedoria?
Agora Illar notará a presença de Thim, o mestre do silêncio ao qual ele havia negado entregar a espada negra, que se encontrava com o armeiro Edson.
- Com todo o respeito, eu acho que o reino tem assuntos de maior importância no momento, devemos focar nossos esforços em evitar uma guerra, deixemos a espada conto de fadas para mais tarde.
Illar não podia acreditar que tinha sido convocado por tal motivo, era um absurdo, convocar o capitão da guarda real para tratar de um assunto tão imoral.
- O norte? Sir Illar, mandei uma carta ao lorde de Roventus. Eu o informei de todos os acontecimentos, da ameaça do norte e de sua covardia em tentar implorar uma trégua. Você sabe o que ele respondeu? Ele fez uma canção! – Jullius sentou-se no chão, em frente ao trono, e começou a dedilhar sua lira – Ele disse que a canção não tinha nome, mas gosto de chama-la de "A canção do nobre" ouça:
‘“Ajude-me!” soava por todos os cantos
a fumaça juntava-se aos prantos
paliçadas, marcando o encanto
de jovens, que já não vêm encanto
em um mundo, no qual não existe descanso
mas no fundo, amado será seu esforço
a morte, tem lá seu encanto.
E não há nada melhor do que o sangue
jorrando do opositor
“avante!” esse é o nosso acerto
e o mundo, volta a ter lá seu encanto
no campo, com batalhas em todos os cantos!’
A canção não parecia vir do lorde de Roventus, Sir Illar já havia lutado ao seu lado outrora e lembrava-se bem: O lorde de Roventus repudia a guerra. E isso não parecia ser o que a canção clamava. A canção enaltecia a guerra.
“E apenas os loucos enaltecem a tal barbaridade” O cavaleiro solitário estava confuso, não sabia o que dizer, apenas ficou em silêncio, enquanto Jullius aplaudia a própria performance.
- Roventus possuí o maior exército de toda a Maros e como você mesmo ouviu, o Lorde de Roventus gosta do som de braços quebrando e cabeças rolando! – Jullius soltou uma risada histérica e voltou a sentar-se no torno.
- Mas, isso já não lhe diz respeito, a partir de hoje você não é mais capitão guarda real, você traiu o reino ao desobedecer uma ordem do mestre do silêncio, você recuou-se a entregar a espada. E você sabe o que acontecem com traidores, não sabe?
Jullius não sorria, um feixe de luz iluminava apenas seus olhos negros, deixando o restante de sua face escondida nas sombras, no silêncio.
- Meu rei, eu não quero isso, eu só quero a espada! Sir Illar é um bom cavaleiro, deixe-o ir! Isso não faz sentido, você não pode...não pode!
Implorou Thim, que parecia arrependido por tudo que estava acontecendo.
Sir Illar ouviu o ranger das grandes portas do salão do trono sendo lacradas, ele não tinha saída, posicionou-se e colocou sua mão direita no cabo da espada.
Jullius rugiu.
- Sir Illar, o cavaleiro solitário, eu o condeno a morte por traição. Guardas, me entreguem o coração deste traidor!
Trinta e cinco espadas brandiram no ar. Sir Illar ergueu sua lâmina que brilhou contra um feixe de luz.
"E no monte do fim tudo começa" O cavaleiros solitário fechou os olhos, Thim gritava por piedade.
A guarda real correu em direção ao cavaleiro solitário.
- Piedade!
Sir Illar preparou a espada.
- Pelos deuses, piedade! parem!
e o som do trovão abalou a sala do trono.