Capítulo 12 - O trovão e o salto do ladrão

- BAIXEM AS ESPADAS, EM NOME DO REI!
E sua voz soou como o mais sonoro trovão na noite mais conturbada.
De imediato, os soldados congelaram, Jullius encontrava-se boquiaberto, soltou sua lira, que acabou destruída no chão.
Ele usava máscara, um tapa olho azul no olho esquerdo e tinha os cabelos longos e negros como a noite. O rei de Maros ressurgirá e apoiava-se em sua filha, Sara. Ambos eram acompanhados de um homem também mascarado, encapuzado em um manto branco com detalhes em vermelho, que fitava tudo em pânico.
Sir Illar pôs-se de joelhos, todos os guardas seguiram seu exemplo, Jullius tremia.
- Meu....meu...meu irmão! – Jullius recuava a medida que o verdadeiro rei de Maros aproximava-se do trono com ajuda da dama silenciosa.
- Você não crê no que vê, irmão? Eu também não. Eu o deixei neste trono com um fundamento, o que foi que eu lhe disse no dia em que cai em trevas? – O rei de Maros agora apoiava-se no trono, mas seu único olho estava fixo no rosto de Jullius, a voz real, que balançava a cabeça de um lado para o outro, tremia e recuava.
- Meu irmão, eu... – Jullius gaguejava -
- O QUE FOI QUE EU LHE DISSE?! – Outra vez, o som de sua voz invadiu toda a sala como um trovão.
- "Jamais exiba poder, use-o para o bem maior!" – Jullius estava derrotado, baixou a cabeça e agora fitava o chão.
- Vejo que se lembra das minhas palavras, mas não fez delas seu exemplo! Como ousa mandar o comandante nomeado sob minha confiança para a morte?! – O rei de Maros estendeu o indicador em direção a Illar – LEVANTE-SE, SIR ILLAR GARTH!
E assim fez o cavaleiro solitário, que pela primeira vez em anos, exibia um sorriso esperançoso no rosto. Depois de um longo tempo, o trono voltava a ser finalmente usado pelo verdadeiro rei de Maros, Gramorn Tarth.
O rei exigiu que o cavaleiro solitário explicasse os detalhes que levaram a sua sentença de morte. Sir Illar não hesitou, contou tudo ao rei. A cada frase que Illar pronunciava Jullius o fitava com mais raiva, o rei assentia e, estranhamente, tossia muito.
- Então você pretendia arrancar o coração do nosso melhor cavaleiro por causa de um simples espada negra?
Jullius enrubesceu.
- Sir Illar tem sido arrogante e vem desobedecendo a inúmeras ordens reais há muito tempo! A espada foi o fim! Foi o máximo que pude suportar! Se deixar que um soldado desobedeça as regras, todos o seguirão e assim o reino ficará em ruínas!
Gramorn gargalhou.
- Ordens reais? Você é só um garotinho que fede a bosta! Eu apostaria minha cabeça que Sir Illar teve razão em todas as vezes em que lhe desobedeceu!
Jullius abriu a boca, mas o rei fez sinal para que ele se calasse e seguiu.
- Sobre a espada, eu tenho total confiança em Thim. Se ele julga que a espada é perigosa, então não tenho escolha se não tomá-la do armeiro. Illar, Edson é um Karth, a família mais leal a minha, ele entenderá e lhe será pago o necessário para que o verdadeiro dono da espada não fique ofendido.
“Será que o rei também enlouqueceu?” Illar não conseguia entender. Tratava-se apenas de uma espada de lâmina negra, que ameaça ela poderia representar a todo um reino?
- Meu rei, se é essa a sua vontade irei pessoalmente pegar a espada, mas ainda não vejo sentido em tal ato. É sábio confundir a realidade com contos infantis?
Thim preparava-se para reclamar, mas a voz do rei foi mais alta.
- Contos infantis foram escritos em sua maioria por adultos e, em sua maioria, representam os medos de todos nós.  Toda história, qualquer que seja, tem algum vestígio da realidade, talvez em sentimentos ou, de certa fora, de forma tangível.
Illar assentiu e decidiu que não valia a pena levar aquele assunto adiante. O por do sol já deixava o céu em tons de laranja. O rei dispensou grande parte das pessoas do salão do trono, restando na sala apenas sua filha, que sorria e acariciava o cabelo do pai, Jullius, que parecia ter fitado milhares de fantasmas, o homem envolto em branco e o cavaleiro solitário, que agora preparava-se para tratar de assuntos de real importância com o rei.
Sir Illar não gostava de admitir, mas agora finalmente entendia os motivos do rei ter ficado tanto tempo afastado. A doença estava destruindo aquele que um dia foi a pessoa mais forte que ele conhecerá, mas mesmo com toda sua aparência debilitada, a voz do rei seguia forte.
- Minha princesa me contou uma história em seus desenhos. Era sobre um rei néscio que ignorou os conselhos de um galante soldado e estava colocando anos de paz em tormento.
O cavaleiro solitário riu.
- Mude o galante soldado por um velho e cansado cavaleiro e terá a atual situação do reino de Maros.
O rei não sorriu, apenas pediu que Illar lhe contasse o que estava acontecendo entre os dois reinos.
À medida que Illar contava, o rei ficava mais e mais espantado. Em certo ponto, o rei levantou-se do trono, e sem apoiar-se em ninguém, foi em direção a Jullius e socou o irmão diversas vezes, sendo necessária a intervenção de Illar.
- Não temos tempo, reúna o maior número de soldados possível para nossa proteção e deixe os melhores aqui para a proteção do castelo e para a proteção pessoal de minha amada filha. Você tem esta noite para despedir-se de quem ama, pois ao fim do dia de amanhã, partiremos para o círculo da paz para negociar com o rei do norte. Não há garantia de retorno, você me acompanhará, como meu conselheiro, Sir Illar.
O rei apoiou-se em sua filha e antes de deixar a sala do trono, olhou uma ultima vez para Jullius, que tinha o rosto manchado de sangue. O rei baixou a cabeça.
- Eu confiei em você, meu irmão, e você destruiu tudo aquilo que lutamos para erguer. Espero que tenha aprendido com seus erros.
Dessa vez a voz do rei soou como um lamento.

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O cavaleiro solitário seguia para a saída do castelo, era sua última noite na capital. Talvez ele jamais voltasse a ver a capital.
- Espere! Comandante, espere!
Illar olhou para trás e fitou o homem de manto branco correndo em sua direção, apenas os olhos azuis do homem eram visíveis, já que além do capuz, ele usava uma máscara branca.
A medida que o homem se aproximou, Illar finalmente foi capaz de reconhece-lo, era o curandeiro da família real.
- Em que posso servi-lo? – Anos se passaram e Illar ainda desconfiava que, talvez, o curandeiro fosse a causa da doença do rei. Talvez ele usasse algum tipo de veneno para debilitar o rei. Não fazia sentido, mas Illar recusa-se a acreditar que um homem como Gramorn pudesse simplesmente adoecer e nunca mais sair de uma cama.
- Sir comandante, esse lugar é seguro para conversar?
Illar olhou para os dois lados e não avistou ninguém, concluiu.
- Creio que sim.
O curandeiro retirou o capuz, revelando nenhum cabelo e retirou a máscara.
- Comandante, preciso lhe pedir uma coisa e explicar muitas outras. Eu o deixei confinado em seu quarto durante todo esse tempo por um bom motivo: Nunca vi doença igual. Não existe cura e com base em algumas informações que obtive ao longo dos anos, é altamente contagiosa! A máscara que ele está usando evita que ele contamine as pessoas ao seu redor com a tosse, mas um simples toque em sua pele pode ser o bastante para ser contaminado.
“Diga logo que é um veneno!” Era o que Illar realmente gostaria de ouvir.
- Você viu a pele dele? Viu o tapa olho, a máscara?
Illar assentiu e o curandeiro continuou.
- O olho esquerdo do rei simplesmente escorreu pelo rosto, e já não existia mais branco, apenas a escuridão! O rei tosse sangue negro, as manchas em seu corpo transformam-se em feridas da mesma cor!
O curandeiro começou a soluçar.
- Eu já ministrei todo o tipo de poção, todo o tipo de cura e nada funciona!
Ele agora segurava o ombro de Illar.
- O rei não vai resistir a viagem até o círculo da paz, talvez, com bastante sorte, ele consiga chegar até o local e resolver os problemas com o norte, mas eu garanto que em algum momento em seu retorno, o rei deixará este mundo. E isso será  bom, não me entenda mal, o rei precisa morrer, se essa doença se espalhar... - O curandeiro recuou.
Illar estava tonto. Os problemas que estava prestes a enfrentar eram bem maiores do que ele havia imaginado. E se o rei deixasse o mundo antes de negociar com o norte? E se o rei morresse em seu retorno a capital e Jullius assumisse o trono? O mundo girava.
- A morte do rei é inevitável, sir Illar, mas durante toda essa viagem, você tem que me prometer que manterá o rei isolado de todos, que usará máscara ao aproximar-se dele e luvas para tocá-lo se necessário.
O curandeiro olhou nos olhos de Illar e foi como se ele estivesse, agora, tocando a alma do cavaleiro solitário.
- E o mais importante de tudo, prometa-me que fará o impossível para que o rei deixe o trono para alguém digno, que fará com que o rei esqueça a ideia de deixar que Jullius sente-se novamente no trono!
Illar olhou nos olhos do curandeiro.
- Eu juro.

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Já era quase noite no Berço das Estrelas e Illar seguia até a casa de Edson, onde todos deveriam comemorar mais um ano de vida do filho mais novo do armeiro. "Passarei meu último dia no reino comemorando o futuro de um Karth" Illar sorriu e seguiu seu caminho.
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Um ladrão corria desesperadamente pelas ruelas do berço do ouro.
Robin tinha a vantagem, mas dez cavaleiros o perseguiam e gritavam para que alguém parasse o ladrão. Alguns tentaram, mas Robin era rápido, esquivou-se todos e, quando restava algum tempo, xingava-os. Ao passar por uma loja de frutas, Robin agarrou uma maçã enquanto e seguiu correndo, dando enormes mordidas na suculenta maçã sempre que possível e sempre em movimento.
Ele correu por uma ruela estreita, cheia de lojas inapropriadas para damas e cavalheiros descentes. Apoiou-se na parede de uma loja chamada “Chama das damas”.
Robin estava exausto e finalmente parecia ter despistado os cavaleiros, bom, foi o que ele achou.
Assim que avistado, todos os cavaleiros seguiram pela ruela estreia, Robin pôs-se a correr novamente. Seguiu correndo por inúmeras ruelas, um cavaleiro quase o alcançou, mas em um giro, Robin jogou o caroço da maçã no rosto do cavaleiro, assustado, o soldado recuou, mas sentiu-se como um idiota ao perceber que assustou-se por um simples caroço de maçã.
Robin seguia correndo, de ruela em ruela, cada vez mais e mais estreitas, até que deparou-se em um beco sem saída. Robin xingou a parede, virou-se para sair do beco, mas já era tarde, os cavaleiros avançavam com cautela em sua direção com um sorriso malicioso no rosto. Não existia saída, Robin estava encurralado.
- Rapazes, francamente? Não podemos conversar como cavalheiros? - Sugeriu o ladrão.
Um soldado gargalhou.
- Eu vou enfiar a ponta da minha espada na sua bunda e girar. Isso é bastante cavalheiresco pra você, ladrão?
Robin ficou sério.
- Não, vocês são muito grosseiros. Querem saber? Acho que vamos continuar com a corrida.
Em um giro, Robin deu um salto em direção a parede e agarrou-se em uma pedra em relevo na parede, inclinou o corpo na direção oposta e jogou-se para o telhado do estabelecimento.
Robin observava os soldados do alto telhado do estabelecimento. Eles o xingavam muito. Robin deu uma palmada na própria bunda e a abanou em direção ao guardas. Ele não deveria ter feito isso, os soldados ficaram tão enfurecidos que decidiram também escalar a parede.
Robin novamente corria, agora no telhado do estabelecimento, o ladrão saltava de telhado em telhado, de loja em loja, de taverna em taverna, deu uma olhadela para trás e viu que graças ao peso das armaduras, os soldados acabavam quebrando as telhas de barro e caindo estabelecimento adentro.
Robin gargalhava e continua a saltar os telhados do berço do ouro.
“Eu sou perfeito!” Pensou o ladrão.
Ele saltou para um telhado cor de laranja e escorregou para trás. Robin deu de cara no telhado laranja e antes que pudesse levantar-se, o telhado cedeu e o ladrão caiu estabelecimento adentro.