Capítulo 8 - O vento e a areia

O vento soprava, mas não soprava o frio, nem chuva e muito menos neve.  Em Taros o vento apenas carregava calor e areia.
Um sulista poderia se perder facilmente naquelas terras, aos olhos de alguém despreparado, a paisagem parecia sempre a mesma. Areia, dunas e, de vez em quando, alguns pequenos vilarejos compostos por barracas no meio do vazio.
Para os sulistas, Taros era apenas conhecida como o “Reino do Norte”.  A miséria era uma condição aceitável e perfeitamente normal para aqueles que lá viviam e a sede era uma maldição, era a eterna tribulação dos nortenhos.
O reino de Taros era tão vasto que ainda existiam regiões não exploradas, não mapeadas.
“Encontre uma bandeira e encontrará Taros” Esse era o provérbio favorito dos nortenhos, uma vez que todas as cidades do reino encontravam-se estrategicamente interligadas de forma circular.
Uma enorme muralha circular marcava a primeira cidade, Lapiduh, terra onde eram treinados os guerreiros e escravos, terra onde a fome já uma velha amiga a todos que ali viviam.
Outra enorme muralha circular erguia-se no centro de Lapiduh, a enorme fortaleza de pedras marcava o território da cidade de Gateruh. Lá eram forjadas as armas, armaduras e todo o tipo de objetos ligados a forja, era conhecida pelos nortenhos como a cidade do fogo, devido ao extremo calor que ali fazia. Assim como em Lapiduh, uma gigantesca muralha erguia-se no centro da cidade de Gateruh, marcando o inicio da cidade de Traveruh e assim se seguia. Pymaruh, Rotaruh, Maruh e finalmente Arenum, a cidade da nobreza, a cidade do rei.
Cada uma das cidades possuía sua própria muralha e todas as cidades eram ligadas, dessa forma, a cidade do rei era protegida por outras seis muralhas tornando o local praticamente impossível de ser invadido ou atacado, uma verdadeira fortaleza circular, onde a muralha de cada uma das cidades defendia a cidade do rei.
Em Arenum, a cidade real, um jovem de pele morena observava a movimentação de sua cidade em sua  varanda.
“Tudo aqui é tão laranja” pensou ele.  O jovem gostava de observar as pessoas, gostava de conhecer seus hábitos e formas de comunicação. “Droga!” pensou o jovem ao fitar o relógio solar localizado perto de uma estatua do rei, após isso decidiu voltar para dentro de seu quarto. O local era enorme, o chão era de mármore escuro, as paredes eram de um laranja forte e quadros com todos os reis de Taros pintavam as paredes de seu quarto. Ele ouviu o som da porta abrindo.
- Senhor Gottuh, seu pai está a sua espera. É melhor se apressar – Anunciou um homem envolto em um manto laranja, o jovem conseguia apenas observar os olhos verdes do homem, já que o mesmo usava máscara.
- Obrigado, diga a ele que já estou a caminho.
O homem fez uma leve reverencia e saiu do quarto.
Gottuh suspirou, colocou uma túnica negra da cor de seus olhos, olhou novamente para a varanda e novamente suspirou.

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- Aquele maldito bárbaro ainda não deu nenhum sinal de vida! Pela deusa e pelo deus, eu juro que eu mesmo cortarei a garganta daquele desgraçado! – O rei cuspiu em um jarro. Era um homem velho, tinha a pele muito escuro assim como seus olhos e o pouco de cabelo que ainda lhe restava, tinha um olhar sanguinário marcado por uma enorme cicatriz linear no olho direito.
- Majestade, eu agora anuncio a entrada de Gottuh Zarth, seu primeiro filho e príncipe de Taros!
Todos presentes no enorme salão circular fizeram reverência ao jovem príncipe que ia de encontro a seu pai, Ricard Zarth.
O rei encontrava-se sentado em um longo pano branco, um tipo de almofada, que estava no negro chão de mármore, em Taros não existiam tronos, o rei deveria demonstrar humildade e sentar-se no chão em respeito ao seu povo e aos deuses.
- Pela vergonha da deusa, você está muito atrasado moleque! – o rei tinha fogo nos olhos. Gottuh baixou a cabeça e desculpou-se com o rei que praguejou algum palavrão e fez sinal para o jovem sentar-se ao seu lado no chão.
- Você sabe que hoje é um dia importante para todos nós. Hoje fazem dezessete anos que você respira o ar abafado de Taros. Tradição é tradição, com essa idade você deve arrumar uma puta...quero dizer...esposa, tanto faz, não é? – O rei deu um sorriso malicioso. Gottuh revirou os olhos.
 - Eu já lhe disse que é muito cedo pai! E eu quero ter o direito de escolher com quem vou me casar, como nas canções ou nos livros, encontrar uma bela jovem, sozinho
- Você já viu a filha dos Tormund? Ela tem uns belos “peitones” se é que você me entende, hehe!
“E você chama os sulistas de bárbaros” ´pensou o jovem príncipe. Gottuh queria encontrar alguém que realmente amasse, o jovem achava que o casamento era mais do que uma tradição, muito mais
- A filha dos Tormund não sabe a distinguir um cavalo de um camelo. E ela não sabe nem mesmo pronunciar meu nome. A garota fica me chamando de “Goduh”.
O rei levantou-se e do chão. Gottuh continuava sentado no chão e de onde o jovem estava, o velho rei parecia feroz e enorme, como um guerreiro gigante dos contos antigos
- Ela pode aprender o seu nome com o tempo, e tanto faz, você não precisa falar com ela, você precisa pegar aqueles peitones e me dar alguns netos. Saiba que um dia você será rei e um rei precisa de filhos!
Gottuh já estava farto daquele assunto, decidiu tentar outro rumo
- E a reunião de paz, pai? Você vai, não é? Não está pensando em sair daqui atacando o Sul...está?
Ao ver o rosto de seu pai passando de preto para vermelho, tudo que o jovem Gottuh pode pensar foi “fodeu!”
- ACHA QUE EU NÃO POSSO DESTRUIR AQUELES MALDITOS BÁRBAROS QUE PASSAM O DIA TODO TOMANDO KONDU? EU ESMAGARIA O CRÂNIO DAQUELE FILHO DA PUTA REAL COM AS PRÓPRIAS MÃOS SE FOSSE PRECISO! – Explodiu Ricard em berros e ainda não tinha acabado – Eu vou na maldita reunião, mas eu já lhe disse moleque, será preciso que o rei leve uma sacola cheia de mulheres para que eu não o mate ali mesmo!
Gottuh levantou-se em um salto
- Pelos deuses, pai! Eu já lhe disse que você deve fazer de tudo pra evitar uma guerra! Chega de derramamento de sangue, negocie com eles, sem guerra, sem luta!
Aquela frase fez com que o rei explodisse por completo. Ricard virou-se rapidamente e socou a cara do príncipe com toda a força. Tamanha força fez com que o jovem caísse no chão novamente.
- Você acha que o mundo é justo e feliz como em seus livros, Gottuh? Pois olhe ao seu redor e me diga o que vê. Diga-me, você tem provas que existem fadas ou até mesmo deuses cuidando de todos nós? Eu só vejo miséria, sangue e areia, muita areia! Nesse mundo, a morte acolhe aos fracos. Não existe lugar para pessoas sem coragem nessas terras sem luz. Agora saia daqui e comece a pensar com quem vai se casar e nunca mais fale de paz na minha frente!
Gottuh saiu de cabeça baixa do salão circular do rei. O jovem estava cansado de tudo e já não pretendia mais viver sobre ordens que não condiziam com sua filosofia.