Capítulo 7 - Deixe a alma em paz

Elizabeth Karth usava um vestido longo colorido em verde musgo, exatamente da mesma cor de seus olhos.
Ela estava em queda livre, podia sentir as nuvens, podia toca-las. O vento fazia com que cada fio de seu longo cabelo vermelho parecessem finas gotas de sangue jorrando por todos os lados.
A jovem estava desesperada, esperava que o chão finalmente chegasse e sua vida terminasse, mas isso não acontecia. Ela estava em uma queda eterna, cercado por nuvens, pássaros e o vento.
- Um sopro – sussurrou uma voz que Elizabeth já ouvirá, mas não conseguia lembrar a quem pertencia.
- Quem é você? Ajude-me, essa queda, eu não aguento mais! – Elizabeth implorou ajuda ao estranho, esperou por uma resposta, mas a espera foi em vão.
Eliza fechou os olhos, não queria mais olhar e nem sentir as nuvens, só queria que tudo terminasse. Quando voltou a abrir seus olhos já não estava mais em queda livre, agora a jovem estava em uma floresta, só que não era exatamente o tipo de floresta que Eliza conhecia, as árvores estavam lá, os arbustos, flores e folhas, mas tudo estava sem vida, todo estava em preto e branco.
A jovem olhou para cima, era impossível ver o céu, as copas das arvores eram o céu naquele lugar. Extremamente negro como a noite mais escura e mais ausente de estrelas.
A sombra de Eliza dançava ao seu redor, fazia brincadeiras e piruetas enquanto a jovem observava pasma.
‘’Acho que estou morta” pensou Elizabeth, só que a pobre garota não se lembrava de ter morrido.
Sua sombra deixou o chão, agora a estava encarando.  A sombra sorriu, deixando um vazio onde o sorriso não podia ser preenchido, abraçou Elizabeth e desapareceu.
- Um sopro, um sopro, um sopro...’ A voz ecoava por todos os lados, era ensurdecedor. Elizabeth tampou os ouvidos com as mãos, mas o som continuou, era como se estivessem em sua mente, como se fossem seus pensamentos e então de súbita, a voz parou.
- Deixe sua alma em paz, garota. Ela é sua, pelo menos a alma... – Elizabeth virou-se e finalmente conseguiu ver quem dava origem a aquela voz, já tinha visto aquele homem, mas não conseguia lembrar seu nome.
- Você...você levou aquela espada negra até meu pai! Seu nome era....
- Zorem? Sim, mas guarde o nome para você, menina tola...
“Tola é sua mãe!”  Eliza pensou em dizer, mas não pretendia ofender a aquele homem, talvez ele fosse sua única saída daquela estranha floresta sem cores.  A menina colocou o peso do corpo no pé esquerdo, fitou o homem escuro em seu manto azul encapuzado por um longo tempo sem dizer nenhuma palavra. O vento soprou, Elizabeth suspirou e finalmente falou:
- Onde estamos? Me ajude a sair daqui, por favor!
- Estamos em um lugar onde coisas horríveis e também lindas podem acontecer, estamos em um sonho.
“Eu sou aquele que está em seus sonhos”  foi a única coisa frase que Zorem direcionou a ela no dia em que o conheceu, Elizabeth enfureceu:
- Isso é um sonho? Então basta eu tirar minha própria vida que estarei de volta ao mundo, não preciso da sua ajuda seu maldito nortenho!
- Nortenho? Como tem tanta certeza da minha origem?
Elizabeth revirou os olhos
- Sua cor, você é escuro, todo nortenho é assim
- E só existe norte e sul? – respondeu Zorem e logo depois deu um sorriso cheio de dentes.
O homem misterioso removeu seu capuz revelando um ralo cabelo escuro, olhou para cima, sorriu e então sentou-se no chão. Elizabeth o fitou por um longo momento, estava preparada para ir até outro lugar quando Zorem fez sinal para que ela também se sentasse, Elizabeth puxou uma mecha de cabelo para trás e respondeu ao sinal:
- Você acha que vou ficar aqui conversando com você? Que imbecil! – A jovem deu as costas para Zorem e saiu vagando pela floresta, mas parou ao som da voz de Zorem:
- E se eu lhe contar uma lenda?
- Que tipo de lenda? – Respondeu Elizabeth, sem olhar para Zorem
- Uma lenda horrível, de um reino horrível
Eliza adorava lendas e histórias, ainda mais quando eram trágicas, decidiu sentar-se para ouvir.
Zorem sorriu e começou:
- Muito longe daqui, existem dois reinos que se diferem por localizações, mas na verdade são o mesmo pedaço de terra, por isso vamos levar em conta que são apenas um. Este é um lugar frio e horrível, cheio de monstros e criaturas terríveis.
Estes monstros comportam-se de maneira abominável, destroem tudo o que tocam e violam a mais pura das flores, apenas por achar que tem poder sobre tudo. Estes monstros desprezam o silêncio, adoram o som da própria voz e devoram a alma uns dos outros, deixando apenas o corpo.
O reino em questão é um lugar frio e sujo, os monstros vagam durante a noite e mais ainda durante o dia. Às vezes, alguns desses monstros não conseguem alimentar-se e então imploram por ajuda e na maioria das vezes, acabam devorando a própria honra.
Mas em meio a tanto terror, existem duas fadas, que observam tudo em silêncio e podem um dia acabar com todo esse sofrimento. Essa é a lenda que você nasceu para evitar, essa é a lenda do eterno e longo silêncio.  – Ao fim da história, o silêncio tomou conta dos dois. Vozes tomaram conta da mente de Elizabeth:
- Corra, minha flor, Illar...procure por Illar....eu te amo... –
“Essa voz?” Elizabeth sabia de quem era,  mas apenas por um segundo, logo depois ficou confusa e não soube ligar a voz a lembrança súbita que teve.
- Lenda do silêncio? Esse é o nome da lenda? Nunca ouviu falar! – a jovem finalmente quebrou o silêncio. Zorem baixou a cabeça e fitou o chão, a sua expressão era de pavor
- O que você sabe sobre as lendas? menina tola...
Elizabeth sorriu:
- Sei que as amo. As canções de guerra, os monstros, reis e demônios! Todas essas coisas só existem nas lendas, eu gostaria de viver em um mundo assim;
Zorem agora tinha uma expressão maníaca no rosto:
- Interessante, mas saiba que as lendas são como o silêncio, podem expressar nossos medos ou podem simplesmente ser sábias, talvez até mais do que todas as palavras do mundo.  Elizabeth fechou a cara:
- Essa frase não fez o menor sentido. Qual era o nome do reino da lenda?
Zorem continuava a fitar o chão.
- Maros ou Taros, tanto faz
Elizabeth não entendeu.
- Maros é o nome do meu reino e Taros é o nome do reino do norte e saiba que não existem monstros lá, eu já procurei
Zorem ergueu a cabeça e fitou a jovem nos olhos. Sorriu e disse:
- Tem certeza?
Elizabeth não entendeu o que ele quis dizer com isso, quando pensou em perguntar, acordou, estava deitada em seu quarto e lembrava-se que seu dia seria bastante cheio.