Capítulo 6 - Que mundo frio

Illar observava as nuvens tomando conta do céu pelas janelas do grande castelo. Sabia o que aquilo significava que mais nevascas estavam por vir e logo o sol não brilharia mais tão forte durante algum tempo.
O cavaleiro solitário estava cansado, a voz real estava cometendo um erro após o outro e se continuasse assim acabaria desencadeando uma guerra.
O céu já estava tapado, era fim de tarde e alguns flocos de neve já começavam a pintar o mundo de branco, Illar não cansava de admirar e, ao mesmo tempo, temer a grande nevasca que se aproximava
- A neve é uma coisa linda, não acha? Pena que deixe nosso mundo tão frio – Illar reconheceu a voz, era o mestre da sabedoria do reino, mais conhecido como professor do silêncio, já que ele era quem ensinava tudo a filha do rei, desde maneiras de comunicação a até mesmo história e arte.
- Olá, Thim. Eu estava observando a neve que se aproxima – respondeu Illar
- Acho que você estava perdido em seus pensamentos, pelo menos era o que parecia – O professor Thim sorriu e caminhou para perto de Illar.
Thim era bastante velho, mas realmente não aparentava isso, estava sempre energético e era uma pessoa realmente agradável, tinha sessenta e cinco anos, queixo caído, olhos profundamente escuros, cabelos brancos como a neve e, no geral, estava sempre com a mesma roupa, um gibão de um azul muito escuro. Illar sorriu
- Tem razão. Tenho tido dias difíceis neste castelo, me perdoe, mas esse irmão do rei é um verdadeiro idiota!
- Não me diga? Achei que ainda não tivesse percebido isso – A verdade era que qualquer um com um pouco de inteligência era capaz de notar que as decisões tomadas pelo irmão do rei eram no mínimo curiosas, a maioria delas não fazia o menor sentido.
Illar ficou sério, voltou a fitar a janela.
- Será que vale a pena colocar tudo que temos a perder? Não foi fácil estabelecer a paz em que vivemos hoje, finalmente as pessoas deste reino tem um pouco de esperança em seus corações. Eu não suportaria ver outra guerra, mesmo sendo um cavaleiro. Já vi muitos amigos caírem, não quero mais ver isso...eu não suportaria
Thim observou Illar com atenção, coçou sua longa barba branca e respondeu
- Sir, as guerras são como um antigo relógio quebrado, pode simplesmente voltar a funcionar sem nenhuma razão ou aviso. Então, esteja preparado e se possível....faça o necessário para evitar que aconteça.
O professor pousou uma mão no ombro de Illar e deu uma piscadela, Illar iria responder mas foi interrompido por um jovem escudeiro;
- Sir Illar, tem um maldito aprendiz de armeiro exigindo ver o senhor, já tentamos colocar aquele bosta para fora, mas ele não desiste, posso dar uma surra no moleque?
- Armeiro? Não, deixe-me ver do que se trata – Illar preparava-se para despedir-se do professor, mas o professor parecia ainda querer continuar a conversa – Acho que vou acompanha-lo sir, fiquei curioso sobre este armeiro.


O cavaleiro solitário e o professor desciam uma longa escadaria que dava entrada ao principal salão do castelo, cada degrau dava lugar a um cavaleiro que montava guarda, pareciam estátuas, totalmente parados, com uma mão pousada na bainha da espada e a outra atirada ao lado do corpo, usavam elmos que deixava impossível reconhece-los, já que apenas os olhos ficavam a mostra.
Illar sentiu pena dos cavaleiros. Estava realmente frio ali e a neve caia sobre as armaduras de todos.
Após atravessar inúmeros corredores e ser interceptado por vários cavaleiros por motivos de segurança, Illar finalmente chegou a outra longa escadaria, a saída do castelo, lá pode ver um jovem surrado, com cabelo desgrenhado, supôs que fosse o armeiro:
- É você que está me procurando? – O jovem se assustou com o som da voz de Illar. parecia estar perdido em pensamentos, respondeu um tanto sem jeito:
- Perdão sir cavaleiro solitá...quero dizer, sir Illar! Eu trabalho com o senhor Karth, ele me mandou aqui para chama-lo. Ele encontrou uma espada curiosa e quer lhe mostrar
- Curiosa como?
- É difícil explicar, mas a lâmina da espada é totalmente negra, sem reflexo, sabe?
‘Como assim? Será que o Edson não sabe o que é uma tinta?’  Achava difícil acreditar que Edson tivesse mandado um armeiro chama-lo só por isso, deveria ter outro motivo. Illar fez sinal que acompanharia o armeiro, olhou para o professor e observou que ele estava com uma estranha expressão no rosto. Thim abriu a boca e logo depois fechou, coçou a barba, olhou para o chão e disse:
- Impossível....uma lâmina escura que não reflete? Sir Illar, eu poderia acompanha-lo para observar essa espada?
‘’Nem deve ter espada nenhuma, fique aqui e vá dar aulas!’’ ´Pensou Illar, provavelmente não existia espada nenhuma, devia ser apenas alguma história que Edson contará ao jovem aprendiz para que o fizesse ir correndo chamar por Illar. Devia ser algum assunto bobo, provavelmente algo envolvendo mulheres, mas Illar não poderia dispensar o professor, então concordou em leva-lo para ver a suposta espada.
O cavaleiro, o jovem aprendiz de armeiro e o professor caminhavam pelas ruelas do pelo berço do ouro que se encontrava um tanto vazio devido a neve que pintava o chão, apenas alguns vendedores chamaram a atenção do estranho grupo. Sir Illar ficou realmente irritado quando um vendedor ficou implorando para que ele provasse uma nova comida, um estranho tipo de batata que o vendedor dizia ser doce, Illar soltou um palavrão ao vendedor e continuou sua caminhada.
O grupo entrou em uma estreita ruela, logo avistaram uma placa que dizia “Armeiro Karth” estava presa em uma casa bastante grande, toda pintada em detalhes laranja, entraram no estabelecimento:
- Senhor Karth, eu voltei! Estou com o cava...com o sir Illar! – Gritou o jovem aprendiz, logo despediu-se e correu até uma sala escura.
O local de trabalho de Edson era uma bagunça total, o chão da recepção era todo de madeira, o balcão de “atendimento” estava empilhado de espadas, escudos e elmos. Haviam espadas enferrujadas espalhadas por todo o canto, haviam até algumas espadas velhas presas a parede cor de laranja.
- ILLAR! PASSE PELO BALCÃO E VENHA ATÉ AQUI! – Gritou Edson, sua voz estava bastante distante. Illar atravessou o balcão e seguiu por um corredor estreito, foi parar em uma sala ampla, toda feita de pedra, era a sala onde tudo era fabricado e, como esperado, era bem mais bagunçado do que a recepção do local. O chão era praticamente feito de pedaços de metais enferrujados, era também um local bastante abafado, já que grandes fornalhas queimavam a todo vapor no local.
Illar avistou Edson martelando uma espada negra. “Então não era mentira...”
- Illar! Pensei que não fosse vir, nossa você está com uma cara péssima, andou chorando? Rá! Seus olhos estão mais cor de musgo do que o normal... – E esse era Edson sendo Edson, mas com todos os defeitos, era o melhor amigo de Illar
- Problemas, amigo, problemas. Então, o que é essa lâmina?- Illar estava incrédulo. Realmente não parecia ser apenas uma simples tinta. A lâmina era totalmente escura, ele nunca tinha visto nada parecido. Edson largou o martelo, pegou a espada e jogou para Illar, que rapidamente a agarrou no ar. Era impressionante. A lâmina era estranha, Illar duvidou que ela fosse capaz de cortar algo até toca-la e fazer um leve corte em seu dedo.
- Essa coisa é bem afiada. Onde você conseguiu isso? – Perguntou Illar, Edson limpou o suor da careca com um pano e respondeu.
-Um viajante...Borem...golem....zobem? Sei lá qual era o nome, deixou a espada comigo, para pesquisar...sabe? Ele também estava bastante intrigado, e ele era da cor da lâmina, haha!
“Da cor da lâmina? Um nortenho...” O professor estava pálido, coçava a barba e observava a espada, finalmente quebrou o silencio:
- Posso ver essa espada?
Illar assentiu e entregou a espada ao professor, que estranhamente tremia.
Thim observou a lâmina, fitou o cabo, apontou a espada para o alto e a devolveu as maõs de Illar. O professor caminhou até perto de Edson e pegou uma espada que se encontrava perto do armeiro, correu com a espada erguida em direção a Illar e o atacou. Illar defendeu o golpe com a espada negra, quando a lâmina da espada de Thim colidiu com a lâmina negra, pode-se ouvir um estranho som e a lâmina da espada do professor se partiu. Edson estava boquiaberto.
- Mas o que foi isso? Essa era uma espada da mais alta qualidade, como ela se partiu?
Illar estava com raiva.
- Mas o que o senhor está pensando? Eu podia ter lhe matado!
Thim coçava a barba e não parava de fitar a espada. Finalmente falou
- A espada que está em suas mãos é lendária. Essa lâmina não pode ser quebrada e destrói tudo que toca. É a espada do lendário herói, a espada que com a ajuda dos sábios, destruiu o sombrio.
“Ah tá, e eu sou um chomt” Illar gostava de história, mas a guerra contra o sombrio não passava de um conto de fadas com um final feliz, sorriu.
- Ah professor, você realmente acredita nisso? Que é uma lâmina poderosa não há duvidas, mas eu duvido que tenha algo relacionado a essa historinha.
Thim ficou vermelho, seus olhos fitavam Illar com raiva.
- Historinha? A guerra aconteceu! Há provas! Essa espada é uma delas, podem não acreditar em um velho como eu, mas por que acham que essa lâmina é escura?
Illar e Edson ficaram em silêncio, o professor continuou.
- É o sangue dele. Escurecia tudo em que tocava e era uma das coisas mais frias deste mundo, por isso a lâmina é tão forte! De a espada para mim, ela é muito perigosa e não pode cair em mãos erradas, eu a guardarei com segurança.
Edson gargalhou:
- Rá! Como vou dar ela a você se a espada nem é minha? Eu achava que o senhor era um professor, não um bobo da corte, HAHA!
“Mas que merda Edson! Você não controla essa língua?” Illar teve que aguentar para não cair na gargalhada, Edson ria, mas o professor não parecia nem um pouco feliz, continuou.
- Eu sou o mestre da sabedoria do reino, eu sou como um irmão para o rei, me passe a espada ou mandarei todos os cavaleiros do reino a buscarem a força! - Illar obrigou-se a discordar
- Não seja ridículo, Thim. Você sabe que eu comando a guarda da cidade e a guarda do rei. Não se preocupe, Edson vai descobrir do que é feita essa lâmina e então o senhor poderá ficar mais tranquilo, deve ser algum tipo raro de aço. Confie no gordão, ele sabe o que faz.
- Gordão? Vá a merda Illar! – Retrucou Edson irritado, mas Thim não se acalmou, o professor estava fervendo de raiva, ele tentou retirar a espada das mãos de Illar a força, mas o cavaleiro ergueu a espada para o alto fazendo o professor ficar com cara de bobo, Thim explodiu.
- Guardem minhas palavras, eu vou ter essa espada, por bem ou por mal! Bom dia senhores!
Com um rápido giro, Thim retirou-se do estabelecimento bufando, Illar estava realmente incrédulo, nunca tinha visto o professor tão alterado, será que ele realmente acreditava no bobo conto de fadas? Illar olhou para Edson, que também estava um pouco surpreso, mas logo o armeiro sorriu:
- É isso que dar trocar mulheres por livros, há!
Os dois amigos caíram na gargalhada. Edson continuou
- Amanhã será aniversário do meu moleque. Faremos um jantar especial, bebidas, doces e carne, rá! Espero que você vá, se você não for vou cortar suas bolas com a espada do demônio, haha! - Illar sorriu e assentiu.
- Pode contar com a minha presença.
Os dois amigos continuaram a conversar por mais algum tempo, enquanto a neve cobria o reino.