Capítulo 5 - A voz real

“Ao rei do Sul, Gramorn Tarth, libertador e amante da honrada paz,
Nosso acordo de paz não está sendo cumprido. A dez anos foi decidido que haveria liberdade de ir e vir com devida autorização entre os reinos, um sulista poderia andar sobre o norte assim como um nortenho poderia andar sobre o sul. Decidimos que haveriam trocas entre os dois reinos, isso nos ajudaria a manter uma forte relação comercial e manteria a paz entre os reinos. O tratado foi honrado durante um longo tempo, mas no ultimo ano o senhor, rei do sul, tem quebrado o acordo. Vem negando meu povo em suas terras e vem ignorando nossas tentativas de trocas e negociações. Pela ultima vez, convoco o senhor ao circulo da paz para uma nova negociação, a reunião acontecerá no nascer do sol da manhã de Gighus, caso se ausente, o norte terá de agir. Ass: Rei Ricard Zarth”


Illar leu a carta e sentiu seu rosto ferver ‘’Aquele maldito bostinha!” pensou o cavaleiro com raiva, mas não pensava no rei do norte e sim no irmão do rei Gramorn, Jullius Tarth, a voz real.
Jullius vinha ignorando as cartas do norte a algum tempo. Mesmo com todos os avisos de Illar, Jullius apenas sorria e dizia “Que comam areia! não vou negociar mais nenhuma riqueza do sul com aqueles bárbaros.” Uma guerra com o norte estava prestes a explodir e Illar não podia deixar isso acontecer, precisava falar com seu rei ou convencer a voz real a ir até a reunião “Seria mais fácil convencer um peixe a beber vinho”.
Illar agarrou a carta, observou por alguns minutos um grande mapa localizado em uma longa mesa na sala de estratégias do reino. Decidiu agir. Desceu uma grande escadaria que era iluminada apenas pela luz de algumas tochas, por algum motivo, aquela parte do castelo não tinha janelas, era bastante úmida e mal iluminada.
O cavaleiro seguiu seu caminho em um longo corredor, dessa vez bastante iluminado pela luz do sol que adentrava por grandes vidraças, iluminando os quadros na parede a sua direita, quadros que lembravam as antigas guerras travadas pelo sul.
Quando chegou ao final do corredor, Illar deu de cara com uma gigantesca porta, suspirou e a empurrou, estava na sala do trono.
Um longo tapete azul estendia-se da entrada até onde instalava-se um grande trono azul, com detalhes vermelhos em seu estofamento. Uma águia com asas de serpente esculpida em madeira encontrava-se ao topo do trono, simbolizando a justiça do rei.
O sol entrava pelas longas janelas que encontravam-se no alto da sala, estavam em uma posição onde iluminava quase toda a sala, exceto a parte onde se encontrava o trono, deixando Jullius Tarth, que se encontrava sentado no trono, com uma aparência bastante sombria, mas Illar sabia que quando iluminado Jullius parecia um grande idiota. Tinha uma pele cor de leite, olhos negros, rosto largo e um cabelo negro totalmente bagunçado.
- Illar, o que faz aqui? – Gritou a voz real, Illar não falou nada, apenas caminhou em direção ao idiota regente e largou a carta do norte em suas mãos. Jullius fitou a carta por alguns minutos, abriu um sorriso e anunciou – Olhem só! Os nortenhos estão nervosinhos conosco! O que eles pretendem fazer? Guerra de areia? – E começou a rir, alguns cavaleiros que o cercavam também riram. "Apenas para agradá-lo" pensou Illar.
- O senhor não deveria brincar com isso, devemos falar com o rei e deixar que ele decida o que fazer, não podemos arriscar uma guerra com o norte, perdemos muitas vidas na ultima guerra – Disse Illar, com toda a seriedade e sinceridade possível.
Jullius levantou-se, não mais sorria.
- Sir Illar, sabe que EU sou o rei agora, não sabe? Meu irmão deixou o reino em minhas mãos e pela ultima vez, eu não vou a nenhuma reunião com esses malditos nortenhos. Que ataquem! Ninguém pode com nosso exército. Temos Roventus ao nosso lado, todos sabem que aquela maldita cidade tem o maior exército do mundo! Agora saia da minha frente, eu tenho assuntos mais importantes a tratar. – O rei deu as costas e preparava-se para sentar-se novamente no trono, mas Illar ainda não tinha acabado. – O senhor é idiota ou apenas gosta de agir como um? O norte é extenso e raramente aceita tréguas, seu irmão lutou por anos e fez com que essa maldita guerra entre reinos fosse extinta, tudo isso com um tratado que você deixou de respeitar! Você vai fazer com que todo o esforço do seu irmão tenha sido em vão? Vai deixar que o reino entre novamente em uma guerra sem sentido, que mães vejam novamente seus filhos partindo para uma guerra sem sentido, tudo por ser um maldito mimado que não sabe nada sobre as guerras? Tudo por não aceitar ou ouvir os conselhos que lhe foram dados?– Illar não tinha medo de Jullius, odiava homens como ele, que tinham coragem apenas com a certeza do poder em suas mãos. O “rei” não gostou de ser desafiado, virou-se e fitou Illar, seu olhar ardia como o fogo, rangeu os dentes e respondeu – Apenas em respeito ao meu irmão eu não mando arrancarem sua cabeça nesse exato momento! Saia daqui e vá rabiscar os seus malditos mapas! AGORA!
“Mas que filho da puta!” Illar fez uma sarcástica reverência e saiu da sala. Notou que durante toda a conversa, Sara os observava “escondida” em uma porta entreaberta próxima ao trono, era difícil não notar a jovem já que, assim como a de Jullius, sua pele era branca como leite. A jovem fechou a porta e saiu correndo com seus longos cabelos negros ao vento.
A filha do rei estava decidida, precisava fazer algo. Escreveu por horas em seu bloco e ignorando todas as ordens, correu até o quarto onde seu pai, o rei, descansava.