Capítulo 3 - Escura como a noite

Era uma bela manhã, a neve começará a cair e logo todo o reino de Maros seria pintado de branco. Já fazia algum frio, mas nada comparado ao que poderia vir a chegar.
As ruelas do berço das estrelas já estavam lotadas. Vendedores, damas e ladrões apareciam por todos os lados, todos tinham algo em comum, alguns podiam não ter nascido ali, mas agora a cidade real era seu lar, mas sempre existem exceções. Um estranho cidadão de pele escura vagava sem rumo pela ruela. Vestia-se com um manto totalmente azul e carregava algo envolto em um pano negro consigo.
Por onde passava despertava a curiosidade de todos. Recusou todas as ofertas de vendedores ambulantes, ignorou as damas, apenas seguia em linha reta, com um estranho vazio nos olhos.
Após algumas horas de caminhada, o vagante chegará ao local conhecido como Berço da Vida, era onde a maioria dos habitantes da cidade real viviam, alguns também moravam na zona comercial, mas o berço da vida era como um grande vilarejo, com casas espalhadas por todos os lugares, o chão era íngreme assim como algumas das casas.
O vagante seguiu seu caminho, agora tinha um estranho sorriso no rosto, cheio de dentes.
Parou, no meio da trilha de casas, olhou para o céu, admirou o dia nublado, olhou para baixo, fechou a cara.
Não caminhava mais com paciência, corria, tropeçou, mas logo levantou-se e seguiu até uma das maiores casas da pequena “vila” uma casa marcada por um escudo que exibia uma grande águia segurando uma longa espada onde deveria ter sua presa, era o brasão do clã Karth.
Uma jovem de cabelos cor de sangue dançava com uma espada de madeira em frente a grande casa de pedra. O vagante parou e a fitou, admirado. Pela primeira vez em dias ouviu o som da própria  voz.
- Olá garota, que belo dia de neve, não acha?
A garota foi pega de surpresa, levou um pequeno susto ao ouvir a voz do vagante. A jovem parecia um pouco distante ao responder.
- Bom dia!...Eu conheço você?
- Não, mas deveria, eu sou aquele que está em seus sonhos. - O vagante sorriu para a jovem dama.
- Eu nunca sonhei com você
‘’Não, menina tola.” Podia acabar chamando atenção desnecessária se continuasse a conversar com aquela garota, foi direto ao ponto.
- Preciso falar com seu pai, o grande armeiro Edson. - A jovem fez uma careta, ficou calada por alguns segundos, mas logo respondeu.
- Vou chama-lo
A jovem escondeu a espada em um amontoado de neve ao chão e correu para dentro da casa com seus longos cabelos ao vento. ‘sangue’ pensou o vagante. Alguns minutos depois a menina saiu acompanhada de seu pai, um homem grande, careca e gordo
- Bom dia, que os deuses o iluminem! Desculpe, mas eu conheço o senhor? -  Perguntou o armeiro
- Não, mas eu conheço você. É famoso, suas armas são bastante conhecidas até no reino de Taros.
O velho gordo encheu-se de orgulho, estufou o peito e disse
- Verdade é? Rá! Gostaria de entrar?
“Que grande idiota’’ o vagante assentiu
-Sim, se não for incômodo.
O vagante entrou na casa. E que bela era aquela casa, logo na entrada já era possível ver que a esposa do grande armeiro gostava de tapetes, pois estavam espalhados pelo chão todo, até mesmo embaixo de uma grande mesa de madeira.
O desconhecido foi convidado a sentar. Sentou-se, colocou seu embrulho negro em cima da grande mesa e disse
- Trouxe até você algo que nunca viu antes, preciso que o senhor a conserte para mim
- Rá! Duvido que nunca tenha visto, já vi todos os tipos de armas existentes no sul e no norte, a propósito, qual o seu nome?
- Meu nome é Zorem, meu senhor.
Zorem tirou o manto negro de cima da mesa e revelou uma longa espada que se escondia ali. Seu cabo era dourado e longo, a grande diferença da espada era que a lâmina era completamente negra e opaca, não refletia nada, era negra como o céu da noite mais escura
- Pelos deuses, o que em nome do sombrio é isso? -
Disse o armeiro Edson com uma expressão de espanto que talvez nem ele mesmo soubesse que era capaz de expressar, pegou a espada, tocou a lâmina e cortou-se
- Essa lâmina é muito afiada! Talvez uma das mais afiadas que eu já tenha tocado, se é que isso é uma lâmina...
Zorem sorriu e disse:
- É exatamente por isso que estou aqui, senhor, preciso que o senhor descubra que tipo de material é este, preciso que descubra se isso não é apenas algum tipo de tinta que cobre esta lâmina.
Edson continuava incrédulo, virou a espada em todos os ângulos possíveis, tentando entender que tipo de material fora usado na bela espada, não conseguiu, mas estava disposto a descobrir.
- Haha! Sou bastante curioso meu amigo Zorem, este é um trabalho que eu faria de graça... Só que não, rá! Acertamos o valor depois, levarei isso até minha armaria no berço do ouro, para estudar melhor, você pode passar lá no fim do dia para conversar
- Fico muito grato, senhor
‘’Feito” Os olhos de Zorem brilhavam. Apertou a mão do grande Edson.
O armeiro seguia para abrir a porta, o vagante percebeu que durante toda a conversa, fora observado pela jovem com cabelo cor de sangue, olhou para a garota e deu uma piscadela. Seguiu para a rua, olhou para o céu e deu seu melhor sorriso, outra vez cheio de dentes.

---------



A noite já havia chegado e o chão já estava totalmente branco, graças a uma grande nevasca que se seguia.
Zorem estava parado a margem de um grande rio que se encontrava quase congelado. Tirou de seu manto azul uma grande faca, com cabo negro, disse:
- Ó senhor que vaga no infinito, sua missão foi dada e cumprida por aquele que agora fala, por aquele que agora beija a escuridão, agora que terminada minha missão foi, entrego minha alma a eterna escuridão. Que possamos dançar juntos ao brilho da ultima estrela, ao eterno silêncio que vaga em nossa mente!
O vagante cortou a própria garganta, seu sangue agora fazia parte do lago, que já estava quase congelado.